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05.09.08

Gaúcho estréia filme com 82 minutos sem cortes



De locação em locação, do drama à comédia. Ônibus, trem, bairro, centro. A cidade e o set de cinema - a linha tênue que separa realidade e roteiro de uma história filmada a céu aberto em Porto Alegre. Ali onde o diretor não tem controle sobre a cena. “Ali onde o ser humano é mais humano, e mais desumano também”.

Estréia hoje “Ainda Orangotangos”, o filme do gaúcho Gustavo Spolidoro - baseado no livro de contos de seu conterrâneo Paulo Scott –para quem “evoluímos bem pouco desde os macacos”.

Por Fergs Heinzelmann

Um homem-orangotango circula pelos bares e bairros de São Paulo e entre sustos e macacadas, anuncia a estréia do filme, "Ainda Orangotangos", às telas da cidade. O longa, baseado no livro homônimo do escritor Paulo Scott, surpreende não apenas pelo seu enredo, mas principalmente pelo formato usado para contar a história: um único plano-seqüência de aproximadamente 82 minutos. Conversamos com Gustavo Spolidoro, diretor do filme, para saber mais detalhes sobre esta curiosa e interessante produção.

Porque a escolha por um único plano-seqüência? Foi uma espécie de desafio, ou uma decisão tomada a partir do conteúdo da história?
Confesso que foi sem querer. Quando pensei no meu primeiro longa, não tinha essa idéia, mas a implicância de alguns - muita gente pegava no meu pé, dizendo que queriam ver eu fazer um longa em plano-seqüência, visto que tenho dois curtas assim (Velinhas, 1998 e Outros, 2000) - aliada à necessidade de fazer um filme de baixo orçamento, o fato de que algumas pessoas pelo mundo estavam realizando longas em plano-seqüência, juntando com o livro do Scott, acabou fazendo com que eu chegasse num longa com esta técnica.

Qual a cena mais difícil de se fazer?
Achava que a mais difícil seria a final, que é um baile de debutantes com uns 40 atores e figurantes, mas eles todos se combinaram muito bem e a cena foi das mais tranqüilas. Tinha muito receio das cenas externas, onde algum transeunte poderia querer avacalhar, mas a equipe estava muito preparada pra isso e não rolaram problemas. Temia até pelas pombas no apartamento, se voariam ou não... Na verdade, a preparação e os ensaios, fizeram com que tudo ficasse coordenadamente acertado, sem problemas aparentes.

Quanto tempo foi necessário pra concretizar esta idéia?
Fazer esse filme foi rápido. Se fosse sempre assim, estaria muito feliz. Abriu um concurso para longas de baixo orçamento do MINC, e as inscrições encerravam em 15 dias, pois o governo tinha que usar a verba naquele ano. Então fizemos um mutirão na (produtora) Clube Silêncio para aprontar o projeto. Eu e o roteirista e amigo, Gibran Dipp, nos debruçamos sobre o roteiro, que tinha 10 páginas, e que pulou pra 70.
Um mês depois de inscrito, ganhamos o concurso - o dinheiro, um milhão de reais, entrou seis meses depois. Entre pré produção, ensaios e câmera ligada foram sete meses.

Falando sobre a trilha do filme, (disponível para download no site www.aindaorangotangos.com), como foi a escolha das bandas? Elas são todas bandas de Porto Alegre, certo?
Eu fiz um filme com histórias de Porto Alegre, de personagens de Porto Alegre, onde a cidade é e está viva, então seria natural que a trilha fosse de bandas portoalegrenses também.
Quando pensei na trilha, quis usar músicas que me marcaram e que gosto muito - "Morte por tesão", dos Cascavelletes e "Amigo punk", da Graforréia Xilarmônica, gravadas por Damn Laser Vampires e Arthur de Faria e Seu Conjunto, respectivamente.
São 16 musicas ao total, algumas tocadas ao vivo no filme pelo Arthur, outras de bandas da nova safra, como Pata de Elefante, A Red So Deep, Superguidis e Justine. Sons que curto e que compõe uma trilha que tem sido muito elogiada.



“Que me desculpem os gremistas, mas este filme tem alma colorada”, diz o diretor

Existe algum receio de que o filme possa ser considerado bairrista, por ter sido filmado em Porto Alegre e ter tantas referências regionais, a exemplo do futebol e da própria trilha?
Costumo ouvir essa pergunta de paulistas e cariocas. Já até ouvi críticas a outros filmes meus e de gaúchos, pelo fato de os personagens falarem "gauchês". E me pergunto: queriam o quê?, que eles falassem paulistês ou carioquês? O filme fala de uma cidade e de seus personagens. Uma cidade apaixonante de onde não pretendo sair. "Sábado" do Ugo Giorgetti, "O bandido da luz vermelha" do Sganzerla, "Não por acaso", do Phillipe Barcinski falam muuuito de São Paulo. Seriam eles filmes bairristas? Não, por favor, não! São filmes que adoro. Não costumo me preocupar com isso.



Ainda sobre Porto Alegre, como é a cena local de cinema da cidade?
A cena de cinema de Porto Alegre andava estagnada. Ainda anda, mas aos poucos estão saindo das universidades novos cineastas, com novas idéias, como um novo tesão. Essa gurizada está fazendo, finalmente, o cinema gaúcho do século XXI.
Destaco dois filmes de alunos da PUC: "Dor de cabeça", do Davi Pretto e Bruno Carboni, que constrói uma ficção com novos elementos narrativos, e "Anagrama", de Jaqueline Debastiane e Fernanda Severo, que criaram uma montagem no frame, na fração de segundos.

E quais os projetos futuros de Gustavo Spolidoro?
Meu próximo projeto se chama "Monte Veneto". Ele se divide em dois: "A História inventada"- um documentário que farei no fim do ano e início de 2009 em Cotiporã, cidade de colonização italiana, com quatro mil habitantes, na serra gaúcha. Ganhei o DOC TV para realizar essa primeira parte. Será com adolescentes do local. Estarei junto do dia a dia deles, durante três meses, acompanhando as formas que eles encontram para viver e conviver em uma pequena cidade, valorizando a liberdade deles, sem fazer julgamentos morais.
Depois, farei "A História real", na mesma cidade, mas com jovens atores. Essa segunda parte será uma ficção e retratará alguns fatos que vivi quando era adolescente lá. Meus amigos da cidade se tornaram adolescentes e isso foi muito revelador para mim, um rapaz da cidade, em contato com pessoas que ainda muito jovens já tinham feito descobertas que eu não tinha feito...

Saiba mais sobre o filme: www.aindaorangotangos.com

Colaborou Fergs – (Fergos, Fergolie, Fergolina - tantos apelidos quanto suas utilidades). 27 anos, formada em moda, apaixonada por gatos, seriados e boa música. Para ler mais, confira seu Blog.

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04.09.08

As fantasias e os clubes de fetiche de São Paulo

ZONA LOST. A saga continua - parte final.
O ‘Alt Porn’ no imaginário. Depois de tanta conversa com um dos donos da X-Plastic – a produtora brasileira de vídeos do gênero ‘Alt Porn’, o assunto que dominou foram os ‘Fetiches’ – os temas do desejo que aparecem, não mais nos vídeos, mas nas noites e nos clubes da cidade de São Paulo.

Lá vai, Alt Porn, parte 3 de 3:

Se você vai para Nova York ou Berlin encontra direto clubes de fetiche na programação, aqui não tem muito disso?
Tem alguns clubes de fetiche – o Libens, Vahala... o Domina - que é uma casa mais antiga, a dona até já foi na Luciana Gimenez para divulgar.
Nesses lugares não tem sexo nem nudez. Só preliminares. Geralmente têm a sala de ‘dungeons’, que é a masmorra, cheia de acessórios. A cultura SM usa muita referência medieval.

E como é o ambiente nesses lugares?
Por incrível que pareça o ambiente é família. A cena não é muito grande e todo mundo se conhece. Se você vai a um lugar num dia, noutro tem grandes chances de encontrar as mesmas pessoas. É um ponto de encontro.
Esses clubes têm festas temáticas. No Liebens, por exemplo, rola workshops de Bondage – que são especialistas em amarração.
Vira uma comunidade. Quem gosta, acaba trazendo outros.

E o que rola?
Chicote, algema, corrente, corda; espanca na cara, na bunda; dominação de mulher com homem, homem com mulher e mulher com mulher. Podolatria tem bastante também, que são pessoas que gostam de pés – caras que ficam rastejando pelo chão e chupando os pés das mulheres... É infinito o negócio.

Minino, “um tapinha não dói”...
Para quem está interessado acabou de lançar esse fim de semana um livro, na Vila Madalena, o Mais - Antologia Sadomasoquista da Literatura Brasileira (Ed. Annablume).

Você tem outros livros ou fontes para indicar?
A primeira dica é conhecer Marques de Sade claro, que é um livro de política que tem o sexo como alegoria. Tem também o livro ‘A História de O’ – (clássico do sadomasoquismo, lançado na França, em 1954); ‘A Secretaria’ – que é um filme blockbuster - aquilo é um conto de fada sadomasoquista.
No momento estou lendo ‘História eróticas do Antigo Testamento’.

Sei, e confere?
Num sei, preciso pegar o Antigo Testamento e procurar.
Tem um site referência que é o kink.com que tem programa de afiliados, e disponibiliza material.

E quais são as técnicas ou fetiches envolvidos?
BDSM – Bondage Discipline SM – que envolve amarração e submissão. Para esclarecer: submissão é diferente de masoquismo. O masoquista gosta de sentir dor. O submisso não necessariamente gosta de sentir dor, gosta de humilhação pública.
Dominação e submissão todo mundo tem uma parcela e é bom que se manifeste na hora do sexo para não sair batendo em alguém fora de hora.
Tem festa de Trampling, que é quando um homem deita no chão e a mulher pisa em cima.

Deve ter termos específicos que não acabam mais...
Tem. Por exemplo, “fazer Cena” - é fazer cena para outras pessoas ficarem olhando. O cara amarra a menina para mostrar que tipo de nó ele faz, como prende ela.
‘Fem Dom’ é uma palavra chave, uma tag de busca para o tipo de fetiche em que a mulher domina. Muito comum.
‘Baunilha’ – são as pessoas que não são SM. Uma pessoa ‘baunilha’ é aquela que vê o assunto na revista NOVA e vai pesquisar mais - vai nos lugares, chega nos conceitos, nos livros – daí é quando ganha sofisticação.
‘Switcher’ – é o ‘gilete’ no SM, a pessoa que gosta de dominar e se submeter. Todo mundo é switcher.

Tem muita gente na parada?
Tem muita gente que não sabe que gosta. É muito mais comum do que se imagina.
Geralmente o cara fica confuso - “por que gostei disso?” - ele não está sozinho, não é anormal, não precisa se confessar e pedir perdão.

E que outros lugares de fetiches tem aqui em Sampa?
Tem o Inner, o Marrakesh e o Nefertiti – que são casas de sexo grupal e voyerismo. É baunilha total. As casas de swing estão bem pop. Virou balada. As casas de SM já é um circuito mais precário.

E manter um site ‘porn’ não causa problemas para vocês?
No Brasil não tem órgão de fiscalização, mas todo mundo se protege porque nos Estados Unidos existe.

Eles são contra o pornô porque o pornô vende. Não estão preocupados com a pedofilia, por exemplo. Pedofilia é um problema, mas quem está interessado em pedofilia está em uma sociedade secreta. Tem um submundo para isso. O cara que curte isso não põe num site. Tem gente que toma remédio para diminuir o desejo e não ter mais vontade. O problema é muito maior
Eles são conservadores e moralistas, são contra o aborto e a favor da legalização das armas.
Veja a vice do McCain, ela é membro da associação de rifles, contra a evolução darwiniana. É a mesma gente que é contra a pornografia.
Lá tem o artigo 2257 que se você quer ter um site de mulher você precisa assinar um documento disponibilizando 24horas do dia para inspeção do FBI. Encontraram uma brecha na lei que é a ‘Obscenidade’. Eles querem dificultar.
A posição americana é muito simplista e o interesse não é o bem estar da população.

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03.09.08

X-Plastic: a única produtora de Alt Porn no Brasil



Dando seqüência para o tema “Alt Porn” – o gênero de vídeos pornôs mais pop do momento, o Repique estende a conversa com um dos donos da X-Plastic – a única produtora de Alt Porn no Brasil, para ficar por dentro de como é feita a produção dos filmes, e o caminho e proporção que a coisa tomou no mercado. A idéia foi deixá-lo falar à vontade e pontuar uma ou outra pergunta para dúvidas e curiosidades.

Lá vai, Alt Porn, parte 2 de 3, produção da X-Plastic:

Como começou essa história de fazer ‘Alt Porn’?
Começamos... Éramos três caras, a gente tinha uma banda de punk rock e todos gostavam de pornografia. Queríamos usar nossa influência de rock e levar isso para a pornografia, daí resolvemos fazer um vídeo com umas bonecas, tinha até trilha do Toy Dolls (trio de punk rock dos anos 80), e o pessoal gostou.

Depois gravamos um vídeo com uma mulher só – a Estela Santos, uma atriz pornô famosa na época, o que acabou ajudando a divulgar o filme. A história era uma entrevista com ela, intercalando com cenas de sexo virtual. Foi nossa primeira experiência gravando com uma pessoa. Foi totalmente despretensioso e acabou rolando no Festival Mix Brasil (de Cinema e Vídeo da Diversidade Sexual). Foi um aprendizado, porque participar de festivais dá muito retorno.

Mas era filme gay?
Não. O Mix não é só gay. E também a gente não tem nenhum problema, não temos essa limitação – “a gente faz filme hétero”, mas até agora nunca teve uma cena de gay masculino.
As locadoras é que dividem isso em segmentos.

Bom, e os festivais que vocês participavam eram onde?
Na Alemanha, Lisboa, Grécia... Os curadores geralmente compram acervos dos festivais.

Participamos até do Festival Porta Curtas da Petrobras, foi o 2º mais votado pelo público – acho que porque o cartaz chamava muita atenção.

Depois fizemos ‘Histórias Sujas’ em VHS, com uma mina tatuada, linda. Ela era conhecida, freqüentava a ‘Verdurada’ – um churrasco de verdura que rolava no Jabaquara. Tinha uma câmera só, a gente só sabia apertar REC, editava tudo de vídeo pra vídeo e acabou que ficou legal. Vendia só em fanzine e em uma loja no Centro, que era um cubículo. Vendeu super bem. Nessas, a gente começou a juntar grana para gravar outro. Tirava dinheiro do bolso. Até que em 2002, gravamos o ‘Nerd Sex’, em DVD, em um dia só e colocamos para vender na Galeria do Rock.

Qual era a tiragem nessa época?
Uns 100, 200 DVD-Rs.

Anunciamos em blogs que queríamos músicas de bandas para colocar nos vídeos.
Daí veio um e-mail do Wander Wildner – o guitarrista e vocalista da banda gaúcha Os Replicantes (punk dos anos 80), mandando três músicas. Foi o máximo porque a gente era fã dos Replicantes. E isso ajudava entre o público que curtia o som.

Em 2005, lançamos o ‘Overdrive’, no esquema independente ainda, com uma atriz pornô, a Tamiry Chiavari. A essa altura a gente já tinha um site – vendia os vídeos pelo site, nas lojas do Centro e na Galeria do Rock. E a imprensa começou a acompanhar o movimento. Foi quando saiu uma matéria na (revista) SEXY, e um cara da Explícita, que é uma distribuidora, ficou interessado e resolveu lançar.

Fechamos o contrato de um DVD para ver como ia ser e fizemos ‘Os Libertinos do Século XXI’, que foi pra a locadora. Já era um DVD de verdade, prensado, e não mais um DVD-R.
Acho que foram umas mil cópias.
O cara gostou e fechamos outro contrato, agora de três DVDs, em que já fizemos dois: ‘O Indulgência’ que é mais hardcore, voltado para SM (sado-masoquismo), e o ‘Geração Perdida’ (foto abaixo), que tem um pessoal com visual modificado – tatoos e piercings.



E quem são essas pessoas que participam dos filmes?
A maioria das pessoas chega até nós porque têm idéias, escreveu um roteiro e quer mostrar, ou quer fazer alguma coisa – fazer câmera, foto, ou participar. Todo mundo quer colaborar.
Uma vez apareceu aqui uma mina totalmente careca, que fugia totalmente do perfil de atriz pornô. Não era do mercado. Ela viu, gostou, se ofereceu e participou.

Mas vocês só filmam com amadores?
Não, sempre mistura. Não dá para fazer só com amador porque esse mercado ainda está em formação.

E não é nenhum mar de rosas. Tem gente que está ali só pela grana. A gente procura conhecer a pessoa e saber a intenção porque só a grana não justifica. Tem que ter vontade, porque depois que você lança não é mais só seu. Cada um vai ver de um jeito.

Uma vez uma bailarina queria participar, ela gravou e nem quis saber do cachê. Fez porque tinha vontade mesmo. Fetiche.

De quanto é o cachê?
O cachê da indústria varia de R$ 500 a R$ 1mil por cena. Gasta-se 70% em cachê. Sobra bem pouca grana.

Vocês ganham dinheiro com isso?
Toda a grana que a gente ganhou, a gente reinvestiu. Ninguém está rico. No mínimo a gente se diverte muito. Vale muito à pena.

Putz, você ainda tem outro emprego?
Sim, sou formado em administração, trabalho no mercado financeiro. Os filmes pornôs - eu comecei a fazer bem antes, em 98, são meu ‘night job’. É o que gosto mais, o resto é tricô.

E vocês fazem tudo – roteiro, direção e produção?
A gente escreve, produz e dirige. A intenção é ter controle total.
Hoje a gente já grava com três câmeras, põe efeito de 24 frames por segundo para ficar com visual de cinema. Faz ângulos mais loucos e ágeis. Nossas referências estéticas são filmes pornôs dos anos 80 e 90; (o fotógrafo) Roy Stuart, (o livro) Motel Fetiche... alguns livros da Taschen (editora inglesa).

Pô, e fica massa assim?
(Faz uma cara ótima reconhecendo a limitação) Não, não fica. É uma referência. Uma coisa a ser atingida.



E com que outras referências vocês trabalham?
Tem a Belladonna,uma atriz pornô, nossa musa superior. Ela nem é a mais bonita, mas ela tem a cara certa, ela olha de um jeito certo, é maluca. E dirige também. E tem a Bobbi Starr também (foto).

E como são feito os roteiros? Quem faz?
A gente quem cria o roteiro baseado em muitas coisas- situações que quer viver, que viveu, ou adaptações do que viveu.
As maiores limitações são a falta de tempo – só grava uma cena por dia, em poucas horas porque as pessoas têm compromissos; os equipamentos – hoje é tudo digital, e a gente ainda não grava em HD. Só agora a gente está conseguindo parar para pensar nisso, porque ninguém fez faculdade de cinema ou curso de edição. A gente sempre fez tudo.
O vídeo da Estela Santos, por exemplo, todo mundo estava na faculdade, e editamos lá mesmo falando que era o TCC – (Trabalho de Conclusão de Curso).

E agora, qual a próxima história?
Agora a gente acabou de gravar uma história baseada na figura da “Loira do Banheiro” – a lenda urbana da loira que ataca no banheiro, em vários banheiros. É uma comédia, e está bem claro que não é para levar a sério. A gente não quer que o cara assista e se masturbe. É uma informação um pouco maior. Pornografia é meio engraçado, se você assiste em grupo, todo mundo dá risada.

Meio pornochanchada?
A gente não consegue fugir da comédia. Tem influência da pornochanchada sim. A gente é brasileiro, filme brasileiro antigo sempre tinha cena de sexo. Crescemos vendo Sexta Sexy. E nos interessamos por pornografia como um assunto.

Tem um capítulo dentro do Libertinos do Século XXI que é bem pornochanchada – “Mulheres honestas não valem uma dose de conhaque” que é a história de uma crente que vai encontrar um cara em um bar na Praça do Correio. É bem machista, filmamos com um cara que o apelido dele é Russo, que tem um visual perfeito - uma cara de canalha, que funcionou perfeito para o que a gente queria - um Bukowski da Boca do Lixo. Ele queria fazer, era um cara gente boa, fácil de gravar, que tem um visual de gente normal – alguém que você realmente encontra na rua.

E camisinha, sempre usa?
Usa camisinha. As pessoas querem ver filme pornô sem, mas a gente sempre coloca,e insere na cena, faz uma mina colocando... Faz parte. Nosso público é mais jovem. Tem uma responsabilidade.

Do contrário seria a mesma hipocrisia de quando você precisa de um motoboy – quando dirige no trânsito você reclama, quando pede, você quer que o cara venha voando.

E Viagra?
Viagra rola em todos. Não existe filme pornô sem Viagra hoje. Mas é importante que as pessoas entendam que aquilo não é real. O cara não tem ereção 100% do tempo.

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02.09.08

Estética e rede social do Alt Porn no século XXI



O Alt Porn - quando o Pornô encontra Warhol

Quando as pessoas ouvem falar sobre sites pornôs logo imaginam aquelas estereótipos horríveis e um bando de pop ups que extrapolam para a imagem da aberração.
De uns anos para cá, a geração que viveu sua juventude nos anos 90, e assistiu o filme Boogie Nights, descobriu que poderia fazer vídeos pornôs alternativos e lançá-los para venda na web. Não são vídeos caseiros, mas um gênero ‘sub pop’, que está imprimindo uma nova cara para os filmes pornôs, cultuando estilo, respeito às garotas, estética anos 90, visual punk, surfista, skatista... Nada de estereótipos ou exageros da indústria. São os hipsters do Porn, que propõem uma nova atitude de consumo da pornografia. Estético e ideológico.

O Repique conversou com um dos sócios da produtora X-Plastic, a única do gênero no Brasil, e colheu material para, pelo menos, três dias sobre o assunto: gênero, produção e fetiches.

Lá vai, assunto 1 de 3: o gênero Alt Porn.

Do que se trata o gênero ‘Alt Porn’?
Eu vejo o Alt Porn como pessoas que cresceram nos anos 80 e 90, não desistiram da pornografia, e misturaram referências das suas vidas para realizar seus filmes.
Tem um artigo na Wired, de 2003 que é "quando o SubPop encontra o Pornô". É isso que a gente está fazendo.

Conta um pouco como começou essa história...
O primeiro site de Alt Porn foi na gringa, em 1999, foi o www.raveporn.com que não existe mais. Virou o http://eroticbpm.com/ que mistura cultura pornô com cultura rave. A filosofia dos caras era “estou na rave, conheço o DJ e as meninas, todo mundo transa, por que não mostrar isso?”.
Depois veio o Super Cult, de um cara chamado Chase Lisbon, também independente, que lançava e vendia pelo site.
Isso tudo é o lado B do Alt Porn.

Porque depois vem a Vivid, que é a maior empresa de pornô do mundo, e que enxergou o Alt Porn como uma oportunidade. Não deixaram passar. Contrataram um diretor, o Eon McKay que fez o Art School Sluts (traduzindo, algo como ‘Putaria na Escola de Arte’), em 2004, que é uma história de uma menina que se apaixona pelo professor.
A Vivid teve uma visão diferente do pornô, e como empresa criou o um selo o ‘Vivid Alt para investir nesse segmento.
Daí surgiu um site mainstream, que é o Suicide Girls, bem famoso, que tem várias brasileiras até. Na época em que surgiu estava para todo o resto da indústria assim como o Guns N’Roses está para as outras bandas – tinha uma grana por trás, de grandes corporações e investidores. Tem até uma lenda nos bastidores que foi comprado pela Playboy.
A questão foi que o Suicide Girls tem um contrato super rígido com as meninas, de exclusividade para sempre, e isso gerou uma reação porque é totalmente avesso à internet e as regras de Creative Commons. Dizem que eles tratavam mal as meninas, xingavam, diziam na cara “Você está gorda” – esse tipo de coisa que acontece muito no mundo da moda com as modelos.
E então os dissidentes formaram um site, o Gods Girls – porque “não queriam ficar aqui com esse tipo de contrato”.

Essas são as maiores referências.
Esses são os nomes.O Chase do Super Cult, o Eon McKay da Vivid e a Joana Angel – que é a maior star do Alt Porn, que tem o site Burning Angel.



(Nota do Repique: Eon McKai é um diretor americano, nascido em 1979, que tem uma certa preocupação estética e preprara um casting alternativo para os seus filmes, de jovens com visual punk ou gótico, não necessariamente da indústria pornô.)

Algo como o Alt Porn está para a indústria pornô assim como o Myspace está para as grandes gravadoras...
Isso tudo foi viabilizado com a internet, foi onde tomou força, tem vida própria. As grandes produtoras nunca descobririam.
O MySpace é muito utilizado e a maioria das produções têm ligação com as bandas. Acabou sendo natural isso acontecer. Se você pegar a história do Rock e do Sexo, elas estão muito ligadas. Qualquer década que você escolher, se você filmasse os bastidores e os camarins, sairia um Alt Porn.

Se você for mais longe, o pornô como negócio está passando por uma crise por causa da pirataria das cópias. E o Alt Porn não, porque tem a vantagem de formar uma comunidade em torno de um vínculo que é diferente.

Rola uma rede social.
O segmento todo usa o que a gente chama de ‘tentáculos’: Blogs, Twitter, Flickr, fotologs, Myspace... todas essas redes que são espaços gratuitos. É fundamental o uso da internet.
Tem uma atriz, a Dana D’Armond – ela começou no Myspace, virou febre, ficou famosa, virou atriz pornô, ficou conhecida como a ‘Internet Girlfriend’ – a namoradinha da internet.

O próprio Suicide Girl é uma rede social, tem perfil, você adiciona os amigos, tem fotos, as pessoas comentam, criam discussões, se sentem parte e participam daquilo. É realmente independente, não precisa de moderador.

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01.09.08

KL Jay: "Hip Hop é diamante que vem do barro"


(Foto: Bordo Fotoz)

“Efeito colateral do sistema”
frase predileta de Kleber Geraldo Lelis Simões, ou o mais conhecido KL Jay - o DJ que faz as bases eletrônicas para os Racionais MCs, que lança seu terceiro trabalho solo, o CD e DVD “Rotação 33”.
Trinta minutos de viradas com vinis de rap brasileiro em que reuniu os nomes mais quentes do movimento hip-hop, e suas rimas “para inspirar a molecada”.
O Repique conversa com ele, que defende que, nessa vida, estamos todos em busca do “encaixe perfeito” - periferia, Jardins e Buraco Quente.

Como surgiu a idéia de fazer o ‘Rotação 33’?
Surgiu em um dia que estava passando pela Galeria 24 de Maio (no Centro de São Paulo) e um amigo me chamou na loja dele, que vende equipamento pra DJ e oferece curso para molecada, e falou “você tem que fazer uma mixtape porque os meninos estão sem referência”. E aquilo ficou na minha mente. Aí comecei a mexer nos discos, as idéias foram vindo e saiu.
Tomei como referência o Funkmaster Flex, de Nova York que gravou o ‘60 Minutes Of Funk’ – em que ele faz mixtapes com trechos instrumentais de rap e chama os MCs para cantarem em cima.

Chamei todo mundo. Quis fazer bem original, só tocando com vinil, sem edição, tipo jogo de futebol. Ao vivo igual a vida, sem cortes, nem edição. Se errasse tinha que fazer tudo de novo.
Errei várias vezes, imagens foram perdidas, mas saiu.

E você tem tocado bastante?
Graças a Deus, bastante pelo Brasil todo, e aqui em São Paulo, como DJ. Estou feliz de estar entre os grandes – Cia, King, Primo, Nuts... Só não dá para fazer mais por causa do meu compromisso com os Racionais.

Você já viajou pra fora do Brasil?
Com os Racionais já viajei para Alemanha, Japão e Estados Unidos. Na Alemanha tocamos para muito s gringos - que eles curtem bastante nosso som; no Japão e Estados Unidos foi para um público de 95% de brasileiros.

E o que andam fazendo os Racionais MCs?
Estamos fazendo o disco novo. A previsão é que saia no final do ano, mas não vai sair, acho que mais pra março mesmo. Vai ser sensacional. Estamos com outra mentalidade, estamos aprendendo e evoluindo nossa visão de mundo, de música, e como pessoas.

Você acha que Hip Hop virou modinha?
Não! Hip Hop é cultura de rua, dos preto, mêu, que foi pro mundo. Quando você lança uma música, ela deixa de ser sua.
É igual o Robinho quando joga, é pro mundo, pra rico, pobre, branco, preto, vagabundo, filho da puta... A música está aí. A questão é não se deixar corromper. Não vejo nenhum problema em tocar em um pico nos Jardins. Vou lá ganhar minha moeda. É a mesma energia que tocar no Buraco Quente.

Tudo bem, mas as letras contestam o sistema e fica um bando de modelo wannabe rebolando a música com calça da moda.
Antes de ser político, Hip Hop é música. Vira e mexe tem playboy ouvindo no carro um som que o Mano Brown xinga ele na cara, mas se ele se identifica... Fazer o quê?
O protesto já ficou batido. Está na cara de todos, independente de ser protesto, gozolândia ou putaria, o que importa é se a música é boa.
Todo mundo critica a música que o Belo faz. O cara já foi preso e tudo, mas vai ver quando ele faz show, todo mundo canta junto, as mulheres choram.
O Hip Hop continua sendo do gueto. Igual funk carioca. É o diamante que vem do barro.

Que outros movimentos estão rolando na periferia além do Hip Hop e Funk?
Periferia é um monte de coisa- igreja, futebol, funk, rap. Todo mundo vê DVD pirata, TV a cabo pirata. Vai ver a Rihanna – é deusa pras meninas.
O problema é o movimento dos crentes, que arrebanham um monte de ovelha perdida. Respeito todas as religiões, mas tem os fanfarrões que controlam muita gente em nome da espiritualidade. Esses não têm vergonha.

Você é religioso?
Todas as religiões levam para um lugar só. Me identifico com o Budismo mas não sou praticante. Gosto também do Candomblé. Mas minha religião sou eu e o universo. Tento respeitar a lei: o que você fizer, vai voltar pra você. A verdadeira guerra é você contra você mesmo. Pratique a paz, seja pacífico, mas não seja passivo.

E minha política é cuidar dos meus, minha família, meus amigos, fazer meu som. Só tenho muito respeito pelo Senador Eduardo Suplicy.

http://www.djkljay.com/

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