Especialista: cinema de terror vive “fase extrema”

Instigado pelo lançamento do filme do Zé do Caixão, "Encarnação do Demônio" - prometido para agosto, o Repique bateu um papo ‘iniciático’ sobre Filmes de Terror com o roteirista e diretor-assistente, Dennison Ramalho, um dos maiores especialistas do Brasil no assunto.
Com 33 anos, ele começou a se interessar pelo gênero há mais de 20 anos, ia atrás de filmes, literatura e quadrinhos especializados, “desde sempre fui interessado, sou um rato de locadora”. E hoje enxerga o gênero como um estudo de comportamento.
Como começou seu interesse sobre filmes de terror?
Comecei assistindo. Vejo tudo de tudo. Tudo do gênero me interessa. Fui aumentando minha coleção, importando VHS, literatura específica sobre cinema de terror, descobrindo filmes, retrospectivas, reprises. Sou um caçador de filmes de horror, raridades que se encontram só em dois ou três lugares do mundo, em Nova York, Londres, Barcelona.
Todo o tempo livre de lazer uso para isso.
Qual sua relação hoje com o gênero?
Tenho um gosto restrito sobre o assunto, não gosto muito de cinema ‘trash’, houve uma época em que até simpatizei, mas perdeu o brilho. Não gosto também de subgêneros – filmes de fantasma, zumbi, casa assombrada, canibal…
Hoje estou interessado em conceito e inovação. Descobrir histórias novas. Esse gênero se vicia - os nomes mudam, mas as histórias são as mesmas; e se reinventa com freqüência - de década em década, a cada cinco anos, porque se tem uma peculiaridade nos filmes de terror é a tendência ao clichê.

Quais foram os principais ciclos?
O primeiro ciclo foi o Expressionismo alemão – Nosferatu, Gabinete do Dr. Caligari; o 2° ciclo foi americano, dos estúdios da Universal, produzindo Drácula e Bela Lugozi; nos anos 50-70, o filmes da Hammer,que era um estúdio inglês que fez Lobisomem, Drácula, Frankenstein - mais violentos e coloridos.
Os anos 80 foram marcados pelos ‘slashers’ (de ‘cortar carne’), com ‘Sexta 13’, ‘Freddy Krueger’.
O interessante é entender como esses ciclos começam, e como vem a ruptura. Por exemplo, gosto sempre de reassistir Drácula, Allien, Psicose, Silent Hill – que são filmes que rompem com as repetições de sua época.
E que ciclo vivemos hoje?
Hoje estamos vivendo uma fase bastante extrema. A tendência mais recente é a fase de tortura, com filmes como ‘Jogos Mortais’, ‘O Albergue’ e suas continuações, gerando até filmes ‘direto para o vídeo’, que nem estréiam no cinema.
Viciou tão rápido que a crítica especializada até já cunhou um termo: ‘torture porn’ (pornografia de tortura).
Agora está para acontecer uma nova ruptura porque Hollywood está até assustada com o caminho que isso está tomando.
E tem os ciclos de remake também, de diretores que refazem filmes antigos com roupagem nova – ‘Madrugada dos Mortos’, ‘O Dia dos Mortos’, ‘A Quadrilha de Sádicos’ (Viagem Maldita).
Os filmes orientais, especialmente os japoneses ganharam muitas refilmagens americanas – The Ring, (O Chamado 1 e 2), The Grudge (O Rancor), O Grito 1 e 2; Espíritos - que é tailandês, bastante assustador – mas nenhuma delas chegou aos pés dos originais.
O único remake que conseguiu superar o original foi o ‘Madrugada dos Mortos’.

E qual o filme que você sentiu mais medo?
O Abismo do Medo (The Descent), do (diretor) Neil Marshall, é o melhor dos últimos dez anos. O mais importante, simples e original. É muito assustador, o roteiro funciona super bem, é uma expedição de mulheres em uma caverna, que desaba, elas ficam presas lá dentro na escuridão, e descobrem uma raça de criaturas mutantes. É tão perturbador que você passa mal no cinema. Tanto susto que se leva, que chega a ficar paranóico.
Você acha que filme de terror apela muito para os efeitos especiais?
Esse dilema não existe. Todo filme de terror tem psicologismos e efeitos, alguns se aprofundam mais.
O Sexto Sentido, Sinais e A Vila, por exemplo, são filmes que não suporto. Têm muita pretensão de ser psicológicos, mas são tão rasos que você não embarca.
E os filmes de terror do Tarantino, qual sua opinião?
O Tarantino é o cara que só foi original em dois filmes: Pulp Fiction e Cães de Aluguel. O próprio Kill Bill e Drinque no Inferno são filmes de homenagem, não são uma voz dele. Ele requentou o que já foi feito nos anos 80, filmes marginais da América Vídeo, com um som e imagens incríveis, é o ‘feio-bonitinho’.
Você acha filme de terror um cinema adolescente, de pipoca?
Assisto a todos com o mesmo respeito. Mas o fato é que ir ao cinema hoje virou uma coisa cara. Virou coisa de Shopping Center. Não posso falar por essa geração de 15-25 anos. Mas no meu tempo, a gente tinha o hábito de ir ao cinema duas ou três vezes por semana porque era mais barato. Tinha aquela coisa de ir à sala escura, com dez pessoas, cultuar o gênero, sair de casa para conhecer. Hoje tem muito preconceito e generalização “É trash” – isso é uma ofensa, demonstra total falta de intimidade com o gênero. Perdeu um pouco o valor de ‘caça ao tesouro’, porque hoje você baixa qualquer filme em 24horas. Antes tinha que ir atrás de literaturas específicas - fanzines de Nova York que demoravam três meses para chegar. Hoje, é muito fácil poder baixar o filme e pausar para pegar sorvete na geladeira.
Que tipo de comportamento apontam os filmes de terror?
No plano do comportamento, vai além de contar histórias assustadoras ou seqüências de violência para provocar uma catarse de sadismo. Existem autores muito experientes, por exemplo, George A. Romero, que, desde 1963 já fez cinco filmes de Zumbi – “Diário dos Mortos”, "Noite dos mortos-vivos", "Madrugada dos Mortos", "Dia dos Mortos" e "Terra dos Mortos". Ele usa o tema para fazer metáforas sobre consumismo, experimentos com a humanidade, críticas a administração Bush… entenda que ele é um senhor de 75 anos e faz uma crítica mordaz à vulgarização da imagem através de câmeras, internet, Youtube…
Hoje no Youtube você pode ver coisas muito mais horrendas. Isso sim que é filme de terror, e pior, valendo.
Parabéns, achei bem interessante e esclarecedor. Fiquei curiosa por essa arte que confesso até agora era film trash pra mim… e agora respeito pelos comentários do Denisson, temos muito o que aprender..
Comentário por monica — 1 de julho de 2008 @ 20:37