Possolo: “maior problema do mundo é a hipocrisia”

Em cartaz em São Paulo com um espetáculo de circo e outro, um drama "bem pesadão", o palhaço, ator e diretor Hugo Possolo, dos Parlapatões, conversa com o Repique e, entre outras coisas, tenta explicar se o Brasil é mesmo um circo.
Você que trabalha com circo, e leva isso super a sério, sabe dizer por que quando a situação baixa o nível, todo mundo fala "isso aqui está um circo"?
O circo ou o palhaço lida com o que é baixo, trata de assuntos grotescos. Eu não me importo que haja bagunça. Agora na vida real está faltando uma bagunça transformadora. O maior problema do mundo é a hipocrisia e aqui no Brasil tem um exemplo típico de um partido que até chegar ao poder combatia a corrupção e agora se vê embrulhado em corrupção. Realmente tem que pensar, porque a falta de seriedade não ajuda em nada. Precisamos de alegria transformadora.
Quer contar um pouco sobre o espetáculo de circo em cartaz, o Oceano?
É o segundo espetáculo do Circo Roda Brasil. O primeiro foi o ‘Stapafurdyo’ que ficou dois anos em cartaz. Para fazer o ‘Oceano’ a gente resolveu partir para uma coisa mais temática - antes era mais tradicional, número depois de número, e em Oceano criamos um tema e uma narrativa alinhando.
Elegemos o mar, o fundo do mar visto de dentro, e o pretexto para isso acontecer é a história de um menino que é engolido pelo ralo de sua banheira e enfrenta uma série de coisas fantásticas e depois volta - como uma Alice no País das Maravilhas, simbolizando o rito de passagem da infância para adolescência.
O espetáculo tem linguagem circense e trilha sonora mais rock - chamei o Branco Mello dos Titãs para fazer, e números super radicais, como patins em half, saltos mortais com pernas de pau com molas – que é uma novidade, não tinha no Brasil até então.
E sobre o outro espetáculo em que vocês estão em cartaz, é dramático, não?
Sim. ‘A vaca de nariz sutil’. É o primeiro drama dos Parlapatões. Depois de 17 anos resolvemos montar uma peça sem humor nenhum. Você pode até suspirar de alguma ironia, mas é bem pesadona. É uma adaptação de um texto do mineiro Campos de Carvalho que conta a história de um combatente da 2ª Guerra que volta meio louco e se apaixona por uma adolescente com problemas mentais.
Então é a loucura dele e a loucura dela pondo em choque toda a moral da cidade em que vivem.
E por que vocês resolveram montar um drama?
Porque dizia algumas coisas que a gente queria dizer e não estava dizendo nas outras peças.
Como o quê, por exemplo?
A forma hipócrita como as pessoas encaram a própria sexualidade. Porque no humor esse assunto tende a ser machista ou forçado, então para falar com propriedade precisa de profundidade.
Você enxerga o poder de transformação do circo tanto quanto do teatro.
O circo é a possibilidade do sonho e da alegria, do homem se aventurando. Tem gente que parece que não sente. Esses são o arauto do problema.
Quando você sai do circo ou do teatro pensando o mínimo que seja, isso já é melhor do que uma pessoa que não vai ao teatro e está muito mais sujeita a comunicação de massa. Só de ensaiar uma situação na sua cabeça. Claro que o teatro não é revolucionário, essa pessoa não vai sair de lá mudando o mundo, mas sua qualidade de pensamento será melhor porque o teatro ajuda a sensibilizar. O artista tem o espírito transformador, sente inquietação, não está satisfeito.
Em um teatro conformista você sai cada vez mais de cabeça baixa, achando que tudo está certinho.
Que autor você acha que espelha bem o Brasil nesse sentido?
O cara que melhor espelha o Brasil na minha opinião é o escritor Plínio Marcos, que por mais complicado que seja, que por mais pesado que sejam seus textos e seu retrato da nossa sociedade ele sempre finaliza deixando uma ponta de esperança, deixa você acreditando que o mundo pode ser melhor. Bem diferente do mala do Nelson Rodrigues, que, claro é um ícone, mas é um cara que fecha todas as portas. O Plínio Marcos é mais brasileiro nesse sentido, da possibilidade de mudança e da transformação. Porque, sem dúvida, o Brasil hoje é bem melhor do que há 40 anos.
O circo não poderia atingir mais gente?
Se você juntar todos os espetáculos de circo no Brasil, de médios e grandes portes, vai ver que o circo atinge um público maior do que o do cinema nacional.
O que falta é prestígio. Não tem valorização nem visibilidade, os próprios donos, atores não têm uma visão de espetáculo, não tem visão estética do circo. Tem um circo em Santa Catarina que copia os figurinos e trilhas do Cirque du Soleil e acha que está uma maravilha. Dá até uma tristeza - sem querer desmerecer o modelo de fora, mas precisa criar um modelo próprio. É isso que estamos tentando mudar, a cara do circo nacional.
Serviço:
CIRCO RODA BRASIL – "OCEANO"
Memorial da América Latina (Portão 04)
Rua Auro Soares de Moura Andrade, 664.
de quinta a domingo, R$ 30 (inteira) R$ 15 (meia)






















