Celebridade no Brasil nunca sai mal na foto

Na contramão do mundo das revistas de personalidades, o Repique conversou com Marcelo Liso, um dos maiores paparazzis do Brasil, para ver como pensa o vilão das celebridades nacionais.
Uma outra verdade, bem diferente daquela que vemos nas revistas e sites sobre o assunto.
Como é ser paparazzi no Brasil?
No Brasil o jornalismo de celebridades e o ‘paparazzismo’ começaram de uma forma séria, com um material bem apurado, repórteres envolvidos, o que é diferente de ‘fazer fofoca’. A idéia desse tipo de jornalismo é dar ao leitor a sensação de viver aquilo por dentro. O público é um pouco voyeur e quer saber o que a pessoa veste, como vive, onde vai.
Isso está crescendo no mercado internacional. Você não vê mais na capa da Time uma criança da Namíbia mas, sim, temas amenos. Não é à toa, a revista People vende mais que uma Time.
Aqui no Brasil, no ranking das revistas, primeiro vem as semanais de notícias depois as de celebridades – Veja, Época, Isto é, Caras… A (revista) Caras vende mais de 1milhão de exemplares por semana.
E qual seu objetivo?
Arrancar as máscaras dessas pessoas que o mundo adora. Mostrar que eles também comem coxinha, vão ao supermercado, quão normal são essas pessoas. Do contrário estaria fotografando em um estúdio.
O problema é que aqui as celebridades são muito blindadas. Não metem a cara fora do hotel, entram em carros vedados por insufilm, que já estacionam dentro de onde vão jantar… entram e acabou, você não vê a pessoa. Qualquer artista tipo BBB se acha, já sai com 50 assessores, em uma redoma, com staff, e puxa sacos. Lá fora, as celebridades são muito mais acessíveis. Você vê fotos deles passeando com o bebê, andando nas ruas, passeando com o cachorro.
Por exemplo, quando o (ator) Pierce Brosnan, (que já fez o papel do agente 007) veio para o Brasil, ele foi visitar a Praça Benedito Calixto (bem popular, classe média, no bairro de Pinheiros, em São Paulo). Faço fotos em lugares públicos, não fotografo o cara dentro de casa. Fiz foto dele até palitando os dentes.
Só quero que eles circulem na cidade. Isso dá oportunidade de fazer um bom material e mostrar quem é a pessoa.

(foto: Marcelo Liso)
Mas deve incomodar essas pessoas, imagina, não poder nem passear com o cachorro vem alguém e fotografa?
A gente vive de vender fotos.
A Gisele (Bundchën) reclama,mas se você entrar no site dela, tem capas e mais capas de fotos que fiz no portfólio. Se ela não tivesse portfólio ninguém a convidaria para fazer trabalho.
O cachê da Cicarelli quando casou com o Ronaldo era um, separou era outro. Quando foi pega na praia voltou a subir. Contratam a Cicarelli não porque ela bonitinha, mas porque ela está na mídia.
E quem põe essas pessoas em evidência somos nós. E elas também gostam de se ver.
E é tudo sempre lindo?
Não. A Britney Spears, por exemplo,começou a fazer merda porque queria aparecer, para cavar espaço na mídia. O Paparazzo tem que tomar cuidado para não ser manipulado pela celebridade.
Ela tem um mercado de fotógrafos sintonizados nela. Equipes de agências que se revezam só para cobrir Britney Spears - se sai mal vestida, se entra no carro e abre as pernas, etc.
Tipo colocar a Kate Moss cheirando na capa…
Os editores no Brasil ficam nas mãos dos caras, porque eles pensam ‘não quero me queimar com o fulano’. O Fabio Assunção, por exemplo, ninguém foi fotografar ele na PF e falar que ele é doidão. Abafam o caso. Sou contra esse tipo de coisa. Lá fora seria diferente. O processo vale a pena.
Venderia quatro vezes mais se fosse mais agressivo - o que é mais real do que essa cobertura que é feita aqui. A Caras é uma revista que só coloca o cara da maneira que ele quer aparecer.
Aqui as revistas de celebridades mais parecem revistas de beleza feminina. É raro ver coisas impactantes, porque o pessoal não tem essa mentalidade.
É raro mesmo alguém se dar mal na foto.
Vai do artista escolher sair bem ou mal na foto. Eles tornam-se pessoas públicas quando optam por uma profissão de exposição.
O cara é formador de opinião, se acha artista quando chega na fila do check in lotado e tem uma série de regalias. Janta fora e não paga a conta. Agora quando é flagrado em uma situação que não gosta, já acha que estou invadindo a privacidade dele.
A Juliana Paes até já processou todo mundo, a Luana Piovani … – elas que vistam uma roupa decente para sair de casa. São pessoas públicas, saem de casa sem roupa de baixo e a culpa é do fotógrafo que teve a sorte de fazer uma foto dela sem calcinha?
A Ivete (Sangalo) toca de sainha, em cima de um trio elétrico, vai ver se ela sai sem calcinha. Não. Ela veste um shortinho por baixo.
Você não acha que virou um consumismo de gente?
É uma indústria. O Estadão, a Folha de São Paulo são uma indústria – se não vender, vão falir. As revistas, a mesma coisa. A pessoa é que se vende. O cara abre a casa para a Caras.
Acho um absurdo uma foto do Ronaldo com um travesti vender mais do que uma foto de um cara como James Natchwey, um fotógrafo de guerra. Adoraria cobrir uma guerra no Iraque, mas quem vai publicar isso aqui?
Celebridade vende.
E quem são as celebridades nacionais?
Celebridade é alguém com projeção internacional – fotos que vendem no mundo: Pelé, Gisele, Ronaldinho.Jogador de futebol que joga na Europa, Rodrigo Santoro, Alice Braga… Antonio Fagundes não é celebridade. Você tem que saber distinguir quem é celebridade de quem é famoso aqui no Brasil. O Fabio Assunção, por exemplo, a foto dele não vende para nenhum lugar apesar dele se achar o Brad Pitt.
A Luciana Gimenes é uma celebridade?
A Luciana não, mas o filho é. Claro que o moleque é uma criança, ninguém vai colocar ele numa situação vexatória, mas as pessoas do mundo inteiro querem saber como ele é.
Os filhos do Brad Pitt e Angelina Jolie, por exemplo, são fotografados diariamente, de uma maneira bacana.
E qual o absurdo que você já fez por uma foto?
Fiquei nove horas em cima de um muro para fotografar a Gisele em um estúdio. Já aluguei dois prédios em obra para fazer fotos pela janela do casamento da Ana Maria Braga. Já aluguei barco para fazer as fotos do casamento da Luciana Gimenes.
Mas daí você está se contradizendo quando diz que só fotografa em lugar público…
A pessoa que se incomoda, que me processe. São fatos específicos da vida da pessoa. Não vou fazer fotos da pessoa dando de mamar para o filho dentro de casa.
Quanto vale uma foto?
Aqui no Brasil chega a valer R$ 5mil, 10mil, 15mil. O mercado ainda é muito amador, como pode uma foto do Chico Buarque beijando uma mulher ser vendida por R$ 2.500? Eu não vendo por esse preço, não quer pagar, fica sem.
Lá fora, uma boa foto chega a bater 1milhão de dólares. Exclusividade é o que vende.
Para quem quiser acompanhar o dia-a-dia do fotógrafo, vira e mexe Marcelo Liso descasca todo mundo em seu blog: Tabloideonline
só fazem pose, topete, sorrisos e inventam o namoro da semana para aparecer, todo mundo fala que não se interessa, mas 1milhão de exemplares de caras vendidos… não deve ter 1milhão de salões de beleza nesse país….
Comentário por felipe — 7 de julho de 2008 @ 16:16
ótima entrevista
bem legal saber mais sobre o universo dos paparazzis
Comentário por Murillo Cezar — 7 de julho de 2008 @ 16:25
achei legal que o lado de lá, dos paparazzis, faz mais sentido do que o lado de cá, dos editores das revistas que vemos impressas!!!!
Comentário por rafa — 7 de julho de 2008 @ 18:07