Terra Magazine

23 de julho de 2008

Compositor cria orquestras com músicos das ruas

repique2008 às 9:20



por Carol Ramos

Inquieto e visionário, o compositor paulistano Livio Tragtenberg vem, desde 2004, fazendo um trabalho de resgate de músicos de rua e da alma das cidades. Primeiro, veio a Orquestra de Músicos de Rua: um mix de fontes e raízes distintas, com 16 músicos de origem japonesa, paraguaia, boliviana e nordestina. Tudo bem característico da trajetória cultural de São Paulo, uma cidade de imigrantes.

Em 2004, criou o Som do 1/2 Fio, projeto com alguns músicos da Orquestra de Músicos de Rua, composto por emboladores, sambistas, cantores, sanfoneiros e percussionistas que juntos fazem um "som urbano, que mistura embolada com samba, forró, choro e muito mais". Na seqüência, passou por Miami e deixou sua semente, a Nervous City Orchestra, com músicos norte-americanos e latinos.

Sem ignorar a fluidez da informação e o acaso, que sempre acabam sendo frutíferos, Livio conheceu, durante uma apresentação do Som do 1/2 Fio no interior de São Paulo, alguns músicos cegos. Nascia a Blind Sound Orchestra, com três sanfoneiros - uma mulher - e um violeiro, há um ano. A BSO apresentou-se neste ano na segunda edição do festival Brasil em Cena, em Berlim, e abriu espaço para que seus componentes experimentassem uma oportunidade única de serem reconhecidos pelo seu talento. "Não faço um trabalho social e sim musical", diz Livio.
Na ocasião, ele acabou também montando uma Orquestra de Músicos de Rua de Berlim, com cerca 12 músicos recrutados nas ruas e no metrô da cidade: três alemães e os outros vindos do Leste Europeu e da África, entre outras regiões.

O céu é o limite para Livio Tragtenberg, que ao longo de sua carreira escreveu livros, compôs trilha sonoras para filmes – como o Através da Janela, de Tata Amaral - e fez a direção musical de peças
e espetáculos de dança. Confira a entrevista que ele deu para o Repique sobre seu trabalho com a Orquestra de Cegos e sua vocação para maestro de orquestras populares:

Você já criou orquestras de músicos de rua em São Paulo, Miami e Berlim. Qual a essência do seu projeto?
Retratar a atmosfera de cada cidade e colocar pessoas diferentes para tocar junto. Para isso, preciso de um grupo com uma identidade forte, representativa.

Como foi o repertório criado em conjunto por você e os quatro músicos do projeto Orquestra de Cegos?
Nossas composições foram feitas especialmente para um filme mudo pernambucano de Gentil Roiz, Aitaré da Praia (1925), um filme de amor, espécie de Romeu e Julieta. São canções baseadas em músicas
tradicionais de compositores como Luiz Gonzaga. Nossa estréia aconteceu na I Jornada do Cinema Silencioso, na Cinemateca Brasileira (SP), em agosto de 2007.

Você deu uma oportunidade a estes músicos que antes viviam no anonimato. O que você acha que mudou na vida deles?
A vida deles não mudou muito. Eles continuam sendo músicos de rua. Não faço um projeto social, e sim musical, então a mudança que vi acontecer foi na auto-estima deles, que passaram a conviver em outros
círculos sociais e puderam mostrar sua arte em lugares como Berlim.

Qual a origem destes músicos?
Todos são do interior de São Paulo. Temos a Clarice Mantovani, que canta e toca sanfona no calçadão do centro de São José do Rio Preto com o Alcidio (voz e violão). O José Rosa, que também toca sanfona,
trabalha nas ruas do centro de Jundiaí e o JP SOM que toca sanfona nas ruas do centro de Araraquara.

Como é a reação das pessoas diante de uma orquestra de músicos cegos?
É ótima. Elas não sabem como eles sincronizam a música com as imagens (a banda se apresenta junto com o filme), e por eles serem cegos tem uma coisa de magia. Tenho um sistema de ponto eletrônico em que me comunico com eles, orientando em qual momento devem tocar.

E quais são seus planos para este ano em relação as suas duas orquestras de SP?
Ainda temos muitos shows para fazer. Em outubro temos uma apresentação no Centro Cultural Usiminas, em Minas Gerais, agendada para a Orquestra de Cegos. Pretendo lançar o segundo CD da Orquestra de Músicos de Rua (o primeiro CD, Neuropolis, foi lançado pelo selo do SESC) e ainda quero criar orquestras de músicos de rua em outras capitais, como Belo Horizonte.

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1 Comentario »

  1. Especial; incrivelmente humano e otimista! Ótima reportagem.

    Comentário por Mauro de Castro — 23 de julho de 2008 @ 11:01

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