Lourenço Mutarelli: as pessoas só entendem a pizza

Lourenço Mutarelli - um criador em transformação: quadrinista, escritor, roteirista e ator - imagem e texto sempre no mesmo fio.
Fez ‘Nina’, fez ‘O Cheiro do Ralo’ - adaptação de livro seu, roteirizou e atuou. Acaba de filmar o Natimorto, mesma condição, autor, roteirista e ator. Acaba de lançar o livro ‘A arte de produzir efeito sem causa’. Chegado a um humor negro. Figura das mais interessantes, e o Repique foi conversar para conhecer um pouco mais de perto.
Queria começar conversando com você sobre o lançamento do seu livro semana passada.
Foi ótimo. É um momento super difícil porque você não consegue dar atenção para todo mundo que está lá por você. Alguém mandou flores, colocaram em cima da mesa e eu achei aquilo tudo meio parecido com um velório, em que é a mesma situação, a diferença é que quando acaba todo mundo vai beber, inclusive o morto.
E qual o título do livro?
‘A Arte de produzir efeito sem causa’ (Ed. Cia das Letras). Peguei essa frase de algum lugar, não sei o autor. Esse título tem um significado, ele quer dizer alguma coisa, mas só os iniciados vão entender. Cada leitor tem que entender para si. As pessoas acham que interativo é só o que está no computador. A arte sempre foi interativa.
Qual o tema?
Eu queria trabalhar com a afasia que é um distúrbio em que a pessoa não consegue reconhecer certas palavras. E isso se agrava e a pessoa não consegue mais falar essas palavras e isso se agrava e ela as esquece de vez, perde a comunicação com o mundo e com ela mesma. A história é sobre um cara que larga o emprego e volta a morar com o pai. É uma família de classe média baixa. E ele começa a receber coisas pelo correio que ele não sabe quem mandou e não entende o significado. Ele recebe notícias de jornais em inglês, CDs gravados em mídias que ele não abre, pedaços de pano…
Afe, já começo a ficar preocupada…
Não precisa ficar preocupada. Tem final feliz, todo mundo morre o final.
rsrsrs, tem esse seu lado mórbido…
Humor negro. Eu brinco muito com isso. As pessoas não percebem muito a sutileza de humor nos meus textos escritos - não nas entrevistas, pois os jornalistas sempre publicam ‘risos’ entre parênteses.
Mas vejo que meu texto quando se torna oral, no teatro ou no cinema, aí sim as pessoas percebem o absurdo que estou dizendo, as coisas mais pesadas, a ironia embutida ali.
É que o Brasil tem um conceito péssimo de humor, que é rir do outro. E nas Histórias em Quadrinhos, que é de onde venho, tem muito da introspecção do personagem, de rir de si mesmo.
Aliás, tive muita dificuldade de ser aceito no meio porque não trabalhava com humor, tinha esse lado mais pesado. Sempre fui um corpo estranho. E não foi só no começo, foram 11 álbuns.
Na literatura foi diferente, fui bem muito mais bem aceito, por pessoas muito interessantes.
Isso quer dizer que você abandonou de vez os quadrinhos?
Talvez eu faça uma coisa meio xarope, bem experimental para que todo mundo se convença que sim, é melhor que eu tenha parado.
E por que essa transição para a prosa?
O Cheiro do Ralo foi o primeiro livro que escrevi, quase por acidente, em cinco dias, durante um carnaval. Fiz direto em prosa porque percebi que se transformasse em quadrinhos eu mataria um pouco a imagem que o leitor construiria por si só, por exemplo, da bunda da personagem que deveria ser idealizada.
Engraçado que a adaptação do ‘Cheiro’ no cinema puxa bastante para a linguagem em quadrinhos…
Sim. As pessoas tentam associar qualquer coisa que eu faça com quadrinhos.
E como foi atuar, representar o personagem que você criou, que já estava desde muito tempo na sua cabeça?
Honestamente eu me desapego de tudo o que faço. O Natimorto é um dos que mais gosto e tenho apego. Esse também é um livro que escrevi muito rápido. E não reli o livro para fazer o filme. Fui direto ao roteiro. Fui viver fisicamente o personagem, tive preparação física para ter essa compreensão, trabalhava a respiração. Nem sempre o personagem que eu imaginava era o mesmo do Paulinho (Machline, o diretor do filme Natimorto). Anteontem eu vi o primeiro corte e fiquei muito tranqüilo com o meu trabalho.
Porque bem ou mal você tem muita noção de dramaturgia uma vez que para fazer os quadrinhos tem que ter a noção exata das expressões faciais…
Para desenhar a expressão era interessante olhar no espelho, porque dessa forma você consegue ver o músculo facial e reproduzir. Assim como para atuar, para desenhar você precisa ter o mínimo de intuição. Estou viciado nisso.
Como começou isso de você virar ator?
Estou fazendo um papel pequeno no filme da Anna Muylaert, ("É proibido fumar"), sou um corretor que tenta vender um imóvel para o Paulo Miklos - foi ele quem me encorajou a começar a atuar, porque vi que pessoas de outras áreas estavam se metendo nisso.
Isso desde o tempo de ‘O Invasor’… Vocês devem estar tirando o emprego de muita gente.
Nossos amigos atores não gostam muito disso. Você faz o primeiro, todo mundo fica feliz, depois, no segundo, complica. Preciso tirar minha DRT.
Porque os diretores aqui não ousam. Não tem coragem de colocar um rosto desconhecido. Não apostam, preferem um ator famoso ou pessoas de outras áreas, mesmo havendo atores incríveis, que nunca pegarão um papel no cinema.
E você já tem outro livro na fila?
Tem. Um que está me dando muito trabalho. O romance daquele projeto ‘Amores Expressos’.
Para onde você foi? Fui para Nova York.
E você curtiu?
Agora mais do que lá, porque é muito difícil você passar um mês, se ambientar, ter uma idéia, e ter propriedade numa cidade que não conhece para escrever um romance. Tudo o que eu falava em inglês ninguém entendia. Só eu entendo meu inglês. Era uma responsabilidade muito grande. Agora pretendo voltar, passar cinco dias, mais no personagem, fazer o trajeto que estou pensando na pele do personagem.
E como é seu processo criativo – entre fazer quadrinhos, escrever livro ou roteiros e atuar?
Embora sejam freqüências mentais muito diferentes, é tudo muito parecido. É tudo observação e concentração. Eu sempre fui muito reflexivo. Nunca acreditei em nada, nem mesmo no que eu escrevia. Pode parecer um chavão, mas o mais importante é você ter seu próprio ponto de vista. Gosto muito de andar de metrô e fico observando as pessoas, escuto o que estão dizendo. Elas pegam um discurso da TV, dos jornais, de algum Big Brother e reproduzem, nem sabem o que estão dizendo. Elas estão distantes, tão longe delas mesmas.
Comentam sobre um acidente e não sabem se o saldo de mortos foi 600 milhões, 600 mil ou 600 pessoas. Ficam reproduzindo aquilo e não tem noção do que estão falando. Aquilo não toca. São meros gráficos em forma de pizza. As pessoas precisam sair disso. Falar de outras coisas. As pessoas só entendem a pizza.
Mutarelli, é um self-made man, ele sabe valorizar seu self até o ponto de poder fazer tudo sozinho, atualmente ele precisa apenas da ajuda de um diretor para exercitar seu ego reflexivo , como ele mesmo classificou sua personalidade.
Começando dos quadrinhos , agregando sua versao pessoal de humor negro e penetrando numa epoca em que a “modernidade” revolucionou a arte sequencial, com Sinkiewkz e Miller , principalmente e mirando na renovação de velhos mestres como o proprio Shima, ele agora pode se orgulhar de estar no topo da piramide e olhando para tras perceber o quanto de tinta já pôde desenhar…RSRSRSRS
Comentário por Jihad — 28 de julho de 2008 @ 11:50
O q caracteriza um artista??
se é ser especializado em uma coisa, isso com certesa não é Louresço Mutarelli!!
Ele é quase um decatleta então!?
Um dos meus autores preferidos e desenhistas também…
alegria de um Nerd!! hehe
Comentário por Deco — 28 de julho de 2008 @ 12:11