Terra Magazine

29 de julho de 2008

Madrugada de terça: encontro de poetas no Rio

repique2008 às 9:15

“Eu quero fazer poesia. Quero uma experiência diferente.”
Para quem só sabe declamar seu número de CPF, saiba que no Rio de Janeiro existem grupos e mais grupos e coletivos e pessoas que passam as madrugadas de terça-feira na livraria Letras e Expressões, no Leblon, declamando poesia. É o Corujão da Madrugada, regido pela batuta de João Luiz de Souza, com quem o Repique foi falar para saber mais.

Luiz, conta um pouco do Corujão da Madrugada.
O Corujão é uma oficina de experimentação e de formação do prazer da leitura, no espírito de comunhão de nossas origens portuguesa, indígena, africana, em que as pessoas se sentam para ouvir histórias, e transmitir cultura oral. É um espaço que dá o pulso do que as pessoas estão lendo e escrevendo. É revezamento a noite inteira.

Quais são os grupos mais representativos?
Os Voluntários da Pátria, Ratos de Versos e Revista Confraria do Vento.

Como começou?
O Corujão tem um histórico que é o inverso de tudo o que acontece. A gente começou em São Gonçalo, depois Niterói, daí fomos para o Rio de Janeiro – sempre acumulando, Ipanema e depois Leblon no quarteirão que não fecha, que fica aberto 24hs.
Ou seja, fomos da periferia, uma zona de trabalhadores, para uma área de classe média alta, a despeito de todas as opiniões em contrário: “como vocês vão fazer poesia num lugar que só tem gente querendo se exibir?, onde estão os paparazzis, ali tudo é muito frívolo, IPTU mais caro da cidade, novela do Manoel Carlos, etc”. Mesmo assim quis experimentar a reação desse público, que parece, não precisam de nada.
Levei porrada de todos os lados. Mas apresentei o projeto na Universidade Salgado de Oliveira e eles me deram carta branca.

E lota?
Começamos da meia noite às 6 da manhã – que é um horário relativamente calmo. Em três meses não cabia mais no café, tivemos que mudar e ocupar toda a área de cima – público, mesa de som, caixa de som, quando a gente abre o microfone não tem menos de 40 pessoas inscritas a fim de declamar poesias próprias ou de autores de sua afinidade – conhecidos ou não, que apresentam poetas do Maranhão, do Recôncavo Baiano, por exemplo, que eu não conhecia.

Me impressionou quando vi como vocês formam um grupo articulado. Não sei dizer se tem disso aqui em São Paulo.
O Rio tem tradição poética. O Rio nunca deixou de ter sarau. Andaram caídos, mas agora, nos últimos quatro anos, as pessoas sentem necessidade de se encontrar. E aproveitam a poesia, que é um canal que mexe muito com a alma e com a emoção. A poesia transgride. E ali é um lugar em que você pode ser o protagonista. As pessoas se aproximam, acabam até namorando.
Até saiu uma nota no jornal dizendo que era um lugar em que solteiros e solteiras podem se dar bem. Porque a poesia seduz. Até o tímido acaba falando.

É um sucesso.
O grande segredo é a continuidade. É não interromper. Nos encontramos toda terça-feira, toda terça-feira tem Corujão. Até na terça gorda de Carnaval, na semana de Natal e Réveillon; se faz chuva, quando uma tragédia abala a cidade, a gente faz acontecer. Não é mais um evento, é um movimento.

E quais os temas que mais aparecem?
Tem muita denúncia social, muito poema ligado a liberação sexual, muito poema ligada à vida urbana. E culto muito presente a poetas como Fernando Pessoa, Manuel Bandeira, Rimbaud, Baudelaire, Carlos Drummond, Cecília Meirelles… É um lugar onde se aprende muito, porque as pessoas são muito obsessivas por certos poetas e acabam sempre contando um pouco sobre a vida e a obra do poeta.

Como é o público?
Tem desde verdureiro até banqueiro, atores e atrizes de novela, cinema, teatro.
Vem gente de todos os lados: gaúchos, pernambucanos, de Curitiba vêm muita gente, de São Paulo vem também. Tem gente que chega desavisada e gente que já chega sabendo que vai ter o Corujão e quer se aplicar um pouco de poesia.
Hoje estamos recebendo muitos turistas, gente que nem fala português e quer declamar um poema do lugar de onde vem. Então acontece de um croata declamar em uma língua que ninguém entende, mas todo mundo se emociona e bate palma no final.

E o projeto das bibliotecas? É fruto do Corujão, não?
De um ano para cá, a gente achou que tudo ia muito bem e estava muito bom, mas só para a gente. Então resolvemos distribuir a alegria e montar uma biblioteca em São Gonçalo com livros doados pelos freqüentadores.
Depois, o Marcelo Yucá e o delegado Orlando Zaconni me procuraram porque queriam montar uma biblioteca dentro da carceragem de Nova Iguaçu, na 52ª, no meio da facção do Comando Vermelho e da ‘Amigo dos Amigos’ – outra facção rival. Lá eu digo que os livros são a única coisa que compartilham
A terceira experiência foi em um hospital. E daí não parou mais. Hoje são mais de 25 pontos.

Quem quiser doar livros, mande e-mail para: a.cultura@nt.universo.edu.br

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14 Comentários »

  1. Corujão da Poesia é demais! Comecei a freqüentar há uns 6 meses e desde então não consigo deixar de ir! É um momento único, onde a poesia, a música e todas as linguagens artisticas se unem, se tornando uma coisa só… É a sinergia perfeita, é um ambiente extremamente gostoso… Não deixem de conferir, é um lugar magnífico… Viva a Poesia, Viva a Arte, Viva João Luiz

    Comentário por Paulo Betto — 29 de julho de 2008 @ 22:01

  2. Sou fruto do ninho do Corujão!Explico: tive o prazer de trabalhar na Livraria Letras e Expressões e, através da confraria do Corujão, pude lançar meu primeiro livro de poesias, chamado “A Última Noite”.
    E esse sonho só se transformou em realidade com a intermediação de João Luis de Souza, Romulo Fritscher, Marcelo Yucca e mais um grupo de fundadores desse movimento que, antes de tudo, ainda acredita na multiplicação do bem.
    Vida longa ao “Dizer Poesia-Corujão da Madrugada”.

    Comentário por Augusto Dias — 30 de julho de 2008 @ 20:47

  3. É uma iniciativa, mais que uma idéia, genial! Jovens, de todas as idades, descobrindo prazer na leitura, na poesia e até na filosofia e podendo compartilhar isso com outras pessoas. Muito legal. Parabéns ao João e a todos que fazem o Corujão acontecer, no Rio, Niterói e São Gonçalo.
    Vida longa!!!!

    Comentário por Maysa Britto — 30 de julho de 2008 @ 23:13

  4. EU AMO esse lugar e as pessoas que lá “habitam”!!!

    Era frequentadora assídua, toda terça estava lá. Só não vou mais porque não moro mais no Rio.
    Esse lugar é fantástico, as pessoas são fantásticas! Perece que todo mundo se combina e no entando e tudo improvisado, feito com o melhor…a emoção!!
    As pessoas vão involutariamente..e ajundam e trabalham e criam novos projetos e ficam felizes.
    Toda terça , agora, pra mim, parece um suplício. Meu corpo já se acostumou a essa ferveção do Corujão. Eu fico inquieta dentro de casa sem podre sair, ver meus amigos, declamar meus poemas, ouvir música, etc
    O Rio tem que conhecer melhor o Rio de Janeiro!!
    bjos
    valeu
    fui°º°º°º

    Comentário por Iolanda Capella — 31 de julho de 2008 @ 2:41

  5. o corujão é meu quintal poético onde além de poemas e poetas encontro afetos recem nascidos,bem vindos e ja essencias. sem poesia, musica ,amizade, afetos sinceros e compaixão a vida seria como um poema ruim que se repetisse sempre ruim. um disco rachado. uma musica jamais terminada jamais ouvida, jamais sentida sequer pela metade.
    sem isso a vida não seria.
    é de poesia, compaixão,paixão e harmonia que se preenche o espaço fisico e inconsútil dos corujões do João e de todos nós.
    - parceiros de uma mesma fé tanto na Vida como na Arte.
    eu amo o Corujão como se fosse uma pessoa querida!.
    querida e essencial.porque me faz falta, me dá saudade, qdo não posso ir, alegra mnha alma e todos os meus sentidos.
    todos mesmo! um por um.
    beijos e carinhos a todos os amáveis iamigos que fiz por lá! amigos que hoje habitam além do letras, meu coração de melão. Graça

    Comentário por maria graça — 31 de julho de 2008 @ 4:00

  6. o corujão é meu quintal poético onde além de poemas & poetas & a mais fina arte encontrei afetos muito bem vindos e hoje essencias à minha vida.
    sem poesia, musica, afeto e compaixão a vida seria um poema ruim.
    uma musica jamais terminada jamais ouvida, jamais sentida.
    sem isso a vida não seria.
    acho que é justamente de poesia, compaixão,paixão e harmonia que se preenche o espaço fisico e inconsútil dos corujões do João e de todos nós.
    - parceiros de uma mesma fé na vida e na arte.
    amo o Corujão como se fosse uma pessoa querida e essencial.
    me dá saudade quando não posso ir, me alegra a alma e me aguça os sentidos estar lá com a galera..
    beijos e carinhos a todos os amáveis amigos que fiz por lá, essas belas pessoas!
    e também aos poetas que me encantam, aos musicos que me emocionam e a todos que hoje habitam, além do corujão, meu coração de melão

    Comentário por Graça Motta — 31 de julho de 2008 @ 5:02

  7. É incomensurável todos os sentimentos que o Corujão tem despertado em mim desde o dia em que comecei a frequentar. Fui um dia para prestigiar uma banda de amigos e tornou-se inevitavelmente um vício das terças em minha vida. Aguçou meu interesse pela poesia, antes limitado à prosa - como toda tradicional jornalista! Incitou minha verve artística e hoje já arrisco meus primeiros versos… não me contentei em apenas escreve-los e já recitei dois deles, o que para mim foi experiência de grande aprendizado: segurar no microfone e declamar algo seu pra quem estiver presente! Uma loucura! Mas uma loucura gostosa demais de se vivenciar.
    Sem mencionar os incontáveis amigos e amigas com os quais fui presenteada em apenas alguns poucos meses de Corujão. Muitos deles estão presentes na minha vida diariamente e nao apenas nas terças poéticas - o que confirma a força e a intensidade dos encontros!
    Só tenho a agradecer por ter ´caído´ num solo tão fértil e poder compartilhar semanalmente toda essa energia positiva!
    Viva!

    Comentário por Tatiane Rangel — 31 de julho de 2008 @ 5:21

  8. Um ambiente q respira arte e cultura… as pessoas são super receptivas, uma oficina de todo tipo de arte… de todo tipo de expressão artística… Deus abençoe o corujão!

    Comentário por Lucas Castelo Branco — 31 de julho de 2008 @ 14:55

  9. em Minas Gerais e com uma vontade danada de me mudar para o Rio por causa Corujão…

    Comentário por monica ash — 1 de agosto de 2008 @ 4:06

  10. João, parabéns mais uma vez! Salve!

    Comentário por Roberta Gatti — 2 de agosto de 2008 @ 12:01

  11. sou brasilera de vivencia de nasimento italiana…di origem jugoslava… atualmente croata….alem de me intruir sobre a cultura deste pais que me ama e io amo tanto…..consegui superar uma viuvez numa boa e entre tanta cultura e poesia consigo ter orgasmos multiplos sem precisar de homens…atualmente dormo com e3…drumond…..vinicius e quintana faço poasia discutindo com eles……sou tarada com o meu geladinho drumonsinho chego a sonhar com ele volta meia volta vou visita-lo no banco da praia….e qundo chego em casa tenho a sensaçao que ele me segui-u..estou desde junho de 2006..e me sinto mamma de todo mundo…..ciao shalom…arrivederco…..mamma.giuly

    Comentário por giulietta pereira deazevedo — 2 de agosto de 2008 @ 15:26

  12. sou brasilera de vivencia de nasimento italiana…di origem jugoslava… atualmente croata….alem de me intruir sobre a cultura deste pais que me ama e io amo tanto…..consegui superar uma viuvez numa boa e entre tanta cultura e poesia consigo ter orgasmos multiplos sem precisar de homens…atualmente dormo com e3…drumond…..vinicius e quintana faço poasia discutindo com eles……sou tarada com o meu geladinho drumonsinho chego a sonhar com ele volta meia volta vou visita-lo no banco da praia….e qundo chego em casa tenho a sensaçao que ele me segui-u..estou desde junho de 2006..e me sinto mamma de todo mundo…..ciao shalom…arrivederco…..mamma.giuly

    Comentário por giulietta pereira deazevedo — 2 de agosto de 2008 @ 15:26

  13. O mais fascinante é o quanto o movimento cresce a cada dia e sobre os pilares de um espaço realmente democrático. No Corujão e no Corujinha todos são ouvidos com o devido respeito, criando uma atmosfera propícia à reflexão e ao real encontro com o outro. É onde podemos vivenciar muito além do umbigo, nascedouro da própria individualidade, para presenciar a formação construtivista de uma outra gente, mas gente da nossa mesma nação brasileira e sedenta por arte, por inclusão e por respeito à toda nossa riqueza e pluralidade cultural.

    VIVA TODO E QUALQUER MOVIMENTO EM PROL DA NÃO OMISSÃO DE NOSSA RESPONSABILIDADE SOCIAL!

    Comentário por Natália Parreiras — 4 de agosto de 2008 @ 20:56

  14. Quando tenho uma folga, aproveito para rever os amigos poetas que afloram amor e paixão em forma de poesia. O João Luiz é um cara muito legal, de uma inteligência esplendida que sabe dosar e falar de todas as coisas magistralmente. Com ele, lógico que nosso Rio de Janeiro, Niterói e São Gonçalo, são muito mais interligados e felizes. Parabéns, amigo João, pela garra e pela força.
    Hana Ramalho

    Comentário por Hana Ramalho — 7 de agosto de 2008 @ 9:15

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