Crônica: “O primeiro filme a gente nunca esquece”

por Carol Lutz
A gente aprende muito coisa fazendo filmes…
Acho que a primeira coisa que eu aprendi foi deixar o glamour de lado e arregaçar as mangas, pois fazer filme dá muito trabalho. Muito mais do que eu imaginava.
Lembro da primeira vez que dirigi um filme. Era um curta-metragem de 10 minutos, em 16mm, colorido com som direto. Minha equipe tinha eu e mais três pessoas me ajudando, uma de cada país: Brasil, México, Itália e EUA. Eu escrevi o roteiro, produzi o filme, editei, e no set estava dirigindo e fotografando. Me sentia uma verdadeira equilibrista de pratos, coordenando para aquilo tudo acontecer direito.
Na véspera da filmagem, às 11 horas da noite, sentei para desenhar o storyboard das cenas que filmaria no dia seguinte, já que não tinha tido tempo durante a pré-produção. Para me inspirar, coloquei "Assédio" do Bertolucci na TV e olhando tudo aquilo, decidi usar no meu filme alguns planos seqüências enormes, achando que assim, facilitaria minha vida não tendo que "dividir" demais as cenas.
No dia seguinte, com meu storyboard à la Bertolucci incrível de baixo do braço, comecei a tentar iluminar a tal cena plano seqüência, onde a atriz ía da porta para o escritório, do escritório para a cozinha, da cozinha para o banheiro, do banheiro para o telefone na sala, e claro, tudo sem cortes, num apartamento de 40 metros quadrados…
Resultado: eu virava a câmera para um lado, via o tripé de um refletor, virava para o outro e lá estava meu colega com o Boom, desviava dele, via a garota gravando o som, mudava tudo, lá estava o outro refletor… Uma tragédia!
À beira de um ataque de nervos, resolvi dar um intervalo para então, rapidamente, dividir meu enorme plano seqüência em milhares de planinhos que dariam para iluminar, um de cada vez, sem a pretensão de querer virar Bertolucci numa noite.
Neste momento, olhei no relógio e já era quase meia noite. A equipe estava cansada, com fome, perdida, com sono, e pediu para ir embora. Eu, estava tudo isso, e mais: frustrada, triste, e com síndrome de abandono total. Dispensei a galera, deitei na cama entre cabos, filtros e fitas crepe, e chorei até dormir.
Este foi só o primeiro dia. Nos dias seguintes não vi TV, não procurei referências, e fiz tudo da forma mais simples possível, ou então não teria filme.
No final deu certo. Acho. O filme passou no cinema da faculdade e tudo. A galera curtiu, e vários amigos vieram comentar.
No escurinho da sessão, meu coração palpitou mais forte do que nunca, e se a luz estivesse acesa, as pessoas teriam visto uma garota muito mais do que vermelha… eu estava roxa! De emoção de vergonha, nem sei…
Só depois de alguns dias consegui absorver melhor tudo o que tinha acontecido durante o processo de fazer aquele filme e resolvi fazer uma listinha de coisas que eu não queria que se repetissem num segundo filme. A lista nunca acabou. A cada novo filme, mais coisas entram na lista de "isso eu NÃO vou fazer de novo"
Deste primeiro filme, feito há seis anos atrás, a listinha era:
1) Nunca deixar para decupar o filme às 11 da noite, na véspera da filmagem
2) Não tentar fazer planos seqüências enormes, com negativo, num lugar escuro e pequeno.
3) Não tentar dirigir e fotografar ao mesmo tempo, o primeiro filme em película.
3) Não esquecer de providenciar uma comida "honesta" para os atores e para a equipe
4) Não perder tempo encanada "no plano incrível que eu vi naquele filme" quando o tempo é curto e a lista de cenas, longa.
5) Não assistir Bertolucci na madrugada da véspera da filmagem.
6) Nunca deixar de curtir o set de filmagem ficando mais estressada do que feliz!
Boa sorte à todos que estão nessa empreitada!
Fazer filme é bom demais!
Carol Lutz
(educadora, cineasta e gestora da comunidade virtual Tela Brasil)