Curumin e todos os sons que cruzam seu samba

Como diria Tom Zé: “é lenta a luta”.
Com a queda da indústria fonográfica, a cena da música Indie vai se consolidando e um monte de nome novo aparecendo. O Repique falou com o baterista Curumin que lançou seu último disco ‘Japan Pop Show’ colocando hip-hop no seu samba, e dub, dancehall e soul - trazendo o gênero para a experiência mais pop que já teve.
Em suas letras Curumin fala de política, relacionamento, crítica social - sem perder o charme nem o bom humor. “Mal-Estar Card” desconstrói o famoso comercial de cartão de crédito para falar de corrupção. “Nem tudo o dinheiro pode comprar/ Para todas as outras existe o meu mal-estar card”.
A música que você faz é samba-hip hop-dub…
Eu gosto de música negra, do mundo todo. Essa é a referência maior. E estando no Brasil, o mais forte é o samba e todos seus diferentes acentos. Não um samba tradicional – cavaco, pandeiro, etc.; não nasci numa roda de samba, mas ouvia samba TAMBÉM, desde sempre. Hoje em dia com esse lance de iPod, mp3, download, cada vez se ouve mais sons variados, Todos os tipos em um dia só. Eu ando com meu iPod carregado com mais de três mil músicas, de todos os gêneros. Daí é difícil fazer uma coisa localizada em um ponto só.
E essas letras que você compôs?
O lance das letras foi um momento que eu senti necessidade - meio revolta mesmo aliada ao fato de que eu estava com uma boa energia para falar. Muita coisa aconteceu no Brasil nos últimos tempos – mensalão, crise de ética, crise aérea. Muita coisa escrota. Momento de desilusão.
Como você está enxergando a cena da música indie atual?
Tem um monte de gente acontecendo. Está formando uma cena indie e os festivais estão ajudando a configurar essa cena nacional.
Esse ano, pra mim, começou pelo Bananada em Goiás, um festival super tradicional de lá, mais focado em rock and roll.
Mas o que está massa mesmo é em São Paulo. Tem muita banda boa, como Cidadão Instigado, Instituto e suas ramificações, como o 3naMassa; Lucas Santtana, B Negão, Turbo Trio, Vanguart. Tem uma banda que conheci de Salvador que chama Subaquáticos, e também o Supercordas do Rio…
Por que você acha que a cena indie está ganhando essa força?
Um dos vários motivos foi a queda da indústria fonográfica que cristalizava tudo em função dela – loja, rádio, jornal, revista. Estavam todos no esquema. E agora que perdeu esse lugar, abriu espaço para todo mundo.
A internet também conectou a galera que é curiosa e que não curte o mainstream, não está nem aí para quem toca no Faustão. Isso acaba formando um público diferente, que começa a conhecer, começa a freqüentar. De repente alguém de Belém conhece seu som.

Você é um baterista que lidera a banda, é meio raro ver um baterista líder de banda, não?
É. Acho que sei porque. Eu sofro um pouco para ouvir, cantar e monitorar a banda. É delicado. Acho que é por causa do lado técnico mesmo. O técnico de som reclama pra caramba porque você canta e vaza o som da bateria no microfone dos vocais.
E na gringa? como foi seu show no SXSW? (maior festival de música independente, que acontece em Austin, no Texas).
Bem doideira esse festival. Acho que eu não estava preparado. É muita coisa acontecendo. Umas 500 bandas no circuito oficial, fora o resto, que rola informal, nego tocando em boteco. Não consegui ver muita coisa porque fiquei perdido, se você não estuda a programação, você não vê nada.
Mas os shows que fizemos foram massa. Tocamos em uma festa fechada junto com o Money Mark, tecladista dos Beastie Boys, Tommy Guerrero, rolava também o lançamento de um filme ‘Beautiful Loosers’.
E o público de lá, como recebeu sua música?
Primeiro rola aquela coisa mais exótica de ‘música brasileira’, mas eles entram na onda total. O show é pra cima, para assistir de pé.
E no momento o que você anda fazendo?
Estou gravando o novo disco do Arnaldo Antunes. Ele vai fazer o disco agora, mas só vai lançar no ano que vem. As músicas estão muito boas, principalmente as letras. O Fernando Catatau está produzindo, o Edgard Scandurra tocando…
Não é aquela linha João Gilberto que ele fez da ultima vez…
Não. É mais rock, mais rock com referência anos 60, meio jovem guarda, meio surf music, mas não ao pé da letra também. É retrô sem ser saudosista.
Ouça aqui o Curumin.