Terra Magazine

29 de setembro de 2008

Tecnobrega vira case de livro

repique2008 às 10:07

Amanhã, 30 de setembro, Ronaldo Lemos, diretor do Centro de Tecnologia e Sociedade da Escola de Direito da FGV (RJ) e diretor do projeto Creative Commons no Brasil, em parceria e co-autoria com a jornalista Oona Castro lançam o livro "Tecnobrega: o Pará Reinventando o Evento da Música" (Ed. Aeroplano).

O livro conta a história do gênero musical paraense e mostra a importância de novos modelos de negócios na indústria cultural brasileira. “Mais do que um estilo musical, o tecnobrega é um mercado que criou novas formas de produção e distribuição”, diz o advogado Ronaldo Lemos.

Economia criativa – em tempos de Myspace, quais são os principais meios de remuneração dos artistas?
Nascido do brega tradicional, o tecnobrega surgiu no início dos anos 2000, distante das grandes gravadoras e da atenção da grande indústria, graças à apropriação de novas tecnologias e à mobilização de agentes como DJs, artistas, cantores, bandas, vendedores de rua, festeiros, etc. É totalmente sustentável, “sem o apoio do mercado formal” e sem o pagamento de direitos autorais advindo da venda de CDs.

Imagine o seguinte ciclo: 1) artistas gravam nos estúdios; 2) há quem selecione as melhores novidades e leve aos camelôs; 3) estes vendem por preços compatíveis com a realidade local e divulgam; 4) DJs tocam nas festas; 5) artistas fazem shows; 6) CDs e DVDs das apresentações são gravados e vendidos; 7) bandas, músicas e aparelhagens estouram na opinião pública e tudo volta ao início.

Em fevereiro, Ronaldo Lemos publicou em forma de blog sua ida a Belém para conhecer a cena. Além de anotações como “Belém é um lugar de fronteira em muitos sentidos”, ou “Kraftwerk nunca deixou de tocar por lá”, seguem aqui algumas de suas observações, que destrincham in loco esse ciclo econômico apontado acima:

Estúdio do DJ Beto Metralha, o homem de capacidade “multitarefa”
“A primeira parada da minha viagem foi visitar o estúdio - convenientemente montado dentro de casa, do Beto Metralha. Outrora um importante membro da cena musical do tecnobrega, hoje Beto opera como uma espécie de catalisador de diferentes cenas e tendências musicais que passam por Belém. A tecnologia é um elemento fundamental desse trabalho, que acontece, por exemplo, através do MSN. Através dele, Beto Metralha recebe músicas de toda parte e agita produções diversas, como o programa semanal de televisão do DJ Dinho, gravado também no seu estúdio, ou então vinhetas para a televisão anunciando as festas da semana. O número de contatos do MSN do Beto Metralha é impressionante. Quando alguém era procurado e estava offline, parecia que tinha alguma coisa errada, como se todo mundo tivesse de estar sempre conectado. O curioso é que ele faz tudo ao mesmo tempo: edita uma animação no After Effects, tecla no MSN, remixa uma faixa no Soundforge, e ainda por cima fala no telefone e ouve música, enquanto conversa com os visitantes (no caso, eu e meus anfitriões em Belém, o Vladimir Cunha e o Gustavo Godinho).”

“Comércio” e Eletro Melody
No dia seguinte, a rota era seguir para o “comércio”, onde no centro de Belém se concentram os vendedores de rua. O lugar é similar ao Saara no centro do Rio de Janeiro, ou à famosa Rua 25 de Março em São Paulo. Conversando com os vendedores de rua, deu para constatar a tendência de crescimento de um estilo musical novo dentro da cena, chamado eletro melody. Para contextualizar, o tecnobrega surgiu quando o brega foi se misturando com música eletrônica, adicionando batidas mais rápidas. Um pouco depois que isso aconteceu, a banda Calypso estourou em todo o Brasil, influenciando novamente a cena. As batidas mantiveram-se eletrônicas, mas se tornaram um pouco mais lentas, gerando uma preferência por vocais femininos nas faixas e fazendo surgir assim o chamado “brega melody” (que domina a cena até hoje). Em mais uma reviravolta estética, aparece agora o “eletro melody”. Ele acelera de novo as batidas e inclui elementos do eletro, cena que fez a festa nos clubes “globais” do início desta década, tudo misturado a vocais que lembram o reggaeton. A cena tecnobrega tem essa necessidade de permanente inovação.”

O curador artístico
“Visita ao bairro do Bengui, para um bate papo com o Márcio, da aparelhagem Vetron - outro ponto de conexão importante do tecnobrega. Ele funciona como uma espécie de curador informal da cena do tecnobrega. Os artistas trazem suas músicas para serem remixadas por ele e incluídas em coletâneas. Usando programas como o Soundforge e Vegas, que aprendeu também na raça, ele busca atender ao gosto do público, ao mesmo tempo em que vai também criando tendências.”

Festa de Aparelhagem
“Lá chegando, de cara, era impressionante o aspecto visual do “altar” da aparelhagem, o lugar onde ficam posicionados os DJ´s, centro das atenções da festa. Parecia que uma espaçonave tinha descido no meio do clube em Belém. Por trás de tudo, um gigantesco painel de leds iluminando o lugar com imagens “remixadas” pelos próprios DJ´s, que são ao mesmo tempo também VJ´s.
A dinâmica da festa é relativamente difícil de entender para um forasteiro. Se shows de rock ou festas de música eletrônica celebram uma certa individualidade, nas festas de tecnobrega dá para ver imediatamente que a coisa é um pouco mais complexa. Primeiramente, são diversas as “galeras” que vão juntas às festas (galera da moto, galera do comércio, dentre outras). Nesses casos, a identidade passa a ser muito mais de grupo do que individual.

Além disso, a comunicação entre o público e os DJ´s é muito mais intensa. Na música eletrônica do Pará, os DJ´s são verdadeiras estrelas e ao mesmo tempo mestres de cerimônia. O público se comunica o tempo todo com eles, que respondem ditando o ritmo e temas da festa, fazendo menções às diferentes galeras presentes no lugar, tudo definido na hora. Até mesmo o jeito de beber cerveja atende a um outro ritual. Ninguém compra a bebida por unidade, mas sim em baldes de gelo, que circulam pela festa através de uma equipe de garçons. Basta ficar parado em qualquer lugar para ouvir a pergunta: - Quer balde?

Saber dançar é um elemento fundamental da festa. Conforme várias pessoas me disseram, “para paquerar é preciso saber dançar”. Quem não sabe, nem tente.
Há algum tempo, as festas de tecnobrega costumavam ser quase que exclusivamente para se dançar juntinho, em parzinho. No entanto, isso mudou há alguns anos e agora muita gente dança sozinha mesmo, ou junto com as galeras. No entanto, essa configuração geral não impede que casais se formem a toda hora. E nessa hora vale tudo: homem com homem, com mulher, com travesti e assim por diante. Vale mais o par que dança melhor e menos o sexo do parceiro. O preconceito não é um convidado bem-vindo nas festas de aparelhagem."
 
E por fim, Chris Anderson e Gabi Amarantos
“Essa história é emblemática: quando veio ao Brasil (Nov/2007), Chris Anderson, o ex-editor da The Economist e hoje editor da ultra-prestigiosa revista Wired - sem a menor dúvida, a revista mais importante do mundo hoje sobre tecnologia e cultura; e também o autor do livro A Cauda Londa (The Long Tail), um grande best-seller mundial, que se tornou referência para o presente das mídias digitais e para os modelos de negócio na internet, ao aceitar o convite de vir ao país, ele fez apenas uma exigência à organização do evento: conversar com a Gabi Amarantos, vocalista da banda Tecnoshow. A conversa aconteceu por telefone e durou cerca de 40 minutos. Foi tão boa que o próximo livro do Chris Anderson, agendado para sair ainda este ano, terá um capítulo com o tecnobrega."

"Tecnobrega: o Pará Reinventando o Evento da Música" é licenciado em Creative Commons e estará disponível para download no site do Portal Literal, (http://portalliteral.terra.com.br/).

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2 Comentários »

  1. O Norte do país não existe só Banda Calypso, na realidade a abnda copiou muita coisa do brega tradicional, resalvando que o brega não é estilo de pessoas ou a musica brega, e sim um ritimo dançante. Logico que não é bem visto pelo resto do país, a industria do tecnobrega não precisa de patrocinio e nem gravadora para sua divulgação, os outros artistias deveriam aprender com os nortista como se faz muito com tão pouco.
    Pra ser sincera não gosto muito do ritimo, mas a dimiro o esforço e independencia desses artistas.
    Portanto merece, respeito e admiração

    Comentário por Izabel — 29 de setembro de 2008 @ 12:00

  2. a primeira vez que fui a Belém há uns cinco anos atrás a cena technobrega já bombava…passei uns dias por lá mês passado e achei que a cena até tava mais devagar, mas na real fiquei pouco tempo, não deu pra tirar a temperatura (só os 40graus ambientes)…contradizendo a colega acima o brega é sim uma cena completa, seja na estética, no comportamento, no som ou na forma de comercialização (que foi o mais inovador), só não confundir mesmo o nome. O brega setentista não tem nada a ver com o technobrega, zuquilive ou qualquer outra variante…sem falar da influência caribenha. Aliás Calypso tá mais pro forro-brega surgido no nordeste na mesma época…

    Comentário por maustar — 1 de outubro de 2008 @ 14:22

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