Terra Magazine

30 de setembro de 2008

Documentário de funk traz o que floresce na favela

repique2008 às 9:14

por Maria Lutterbach

O que o funk carioca ainda tem para mostrar
Depois de entrevistar o DJ Diplo sobre sua vocação para escavar sons vindos de guetos, como o funk carioca, o Repique conversa com Leandro HBL, diretor parceiro do DJ no filme Favela on Blast, que estréia nesta sexta, 03 de outubro, no Festival do Rio.
Desde as primeiras filmagens de HBL e Diplo em 50 comunidades cariocas até o lançamento do documentário sobre o ritmo dos morros, alguns artistas, como Deize Tigrona, passaram a fazer mais shows no exterior do que por aqui. Mas a maioria, garante o diretor, continua produzindo música em estúdios improvisados, com estrutura mínima e energia transbordante.

Você e o Diplo estavam interessados inicialmente em produzir um documentário sobre a estética do funk. É este olhar que o Favela on Blast traz?
Num no primeiro momento, a estética era forte, mas depois os personagens e a cultura também. No fim, as três coisas convergiram para o resultado final. Acho que um gringo que não conhece o funk carioca pode ficar mais atento ao aspecto sociólogico, mas quem gosta de música vai achar interessante a produção dos caras e quem presta atenção em estética vai gostar das imagens.

Alguns personagens que aparecem no documentário são conhecidos fora do morro, outros são artistas que permanecem anônimos, na base de produção.
Quando começamos a filmar, há três anos, tinha algumas pessoas em voga no movimento, como o MC Catra e a Deize (Tigrona), que hoje faz mais shows fora do Brasil do que aqui. Os MCs Gil, Buiu e Magrinho estavam começando e agora estão bombando. Esses que estavam fazendo sucesso eram interessantes porque estavam já em contato com artistas de fora. Outros desconhecidos, como o DJ Jorginho Matarazo, mostra no documentário exatamente como é o processo de gravação das músicas, qual o software que ele usa e o que ele acha do movimento funk. Exigiu um pouco levar esses dois lados, mas acho que o filme contribui um pouco para mostrar quem são as pessoas que fazem o funk.


O co-diretor de Favela on Blast, Leandro HBL

Que tipo de relação a equipe de filmagem estabeleceu com os entrevistados para conseguir costurar essa história?
No início do projeto eu morava a Itália, mas vinha para cá e ficava por conta do Favela dois meses direto. O cara ia na churrascaria, eu ia junto. O cara casava, eu ia filmar. Ao invés de ir num boteco ou num clube do asfalto, ia jogar sinuca na Rocinha. No momento em que a gente pisava na comunidade o acesso era total, mesmo com o tráfico. Estávamos trabalhando com câmera e é bem complicado porque as pessoas têm que confiar em você. A gente chegou devagarzinho, por isso levou três anos para ficar pronto. A equipe do (filme) Tropa de Elite quis chegar chegando e fecharam o tempo com eles. Tiveram as armas roubadas (em assalto no morro do Chapéu Mangueira, Zona Sul do Rio, em 2006).

Por falar em Tropa de Elite, você acha que o Favela on Blast pode ser hostilizado devido à resistência que público brasileiro já desenvolveu a "filmes de favela"?
Sofremos preconceito já na fase de captação porque as pessoas acham que todo mundo já conhece funk, então não conseguimos captar e acabamos produzindo tudo sozinhos. Acho que não caímos na mesma receita de jeito nenhum. Diferente desses filmes sobre favela, a gente mostra o lado criativo e positivo das comunidades. O Hermano (Vianna) falou que é a primeira vez que ele viu um filme "feliz" sobre favela. Quisemos mostrar o que floresce ali, o que expande e passa despercebido aos olhos das pessoas. É muito fácil falar da coisa social podreira e até tínhamos material para isso, mas a gente faz uma apologia ao funk e não dá voz aos antagonistas, como aqueles que criminalizam os funkeiros ou a polícia, que é contra o movimento em várias momentos.

Como foi escolher esse lado e ainda assim mostrar as contradições características do movimento?
Ao agir assim, não fomos inocentes, nem fingimos que é tudo uma beleza. A gente aborda, por exemplo, o proibidão (funk com letras sobre a facção criminosa que domina a comunidade), que deixa às vezes um MC marcado por ter feito determinada rima. O (MC) Colibri, por exemplo, não toca em morro do Comando Vermelho. O nosso foco é a música e a produção artística, mostrar que aquele som ouvido cada vez mais aqui e lá fora é feito por pessoas criativas. Normalmente a vida dos MCs é muito sofrida. O Colibri mesmo foi preso por associação ao tráfico e teve dois irmãos envolvidos que faleceram. Mas qual é a capacidade artística do cara, o som dele, no que ele pira? Ele era puxador da Império Serrano, começou a fazer funk e produz músicas incríveis, todo mundo tem orgulho. A gente chegava no lugar para filmar e vinham 500 crianças atrás dele. Ele também quer mostrar que produz, que é do caralho.

O que mudou no funk carioca que vocês conhecerem há três anos para o que é feito agora?
A gente vê como eles continuam produzindo muito precocemente a música e como é diferente a relação das pessoas com o corpo. Essa coisa da mulher usar o corpo para se colocar diante do homem e cultuar um feminismo inverso a esse feminismo intelctualóide francês é muito louco dentro da favela. O baile é a maior diversão da comunidade hoje em dia, substituiu mesmo o samba. Mas o funk não saiu do gueto, continuam a ser dois ou três caras produzindo num estúdio, feliz ou infelizmente. O que tem agora são mais DJs do mundo sampleando o funk, colocando esse pitada. Esse é o legado.

Colaborou Maria Lutterbach

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11 Comentários »

  1. vi umas cenas desse doc dos meninos e babei! tá ducaralho o trabalho deles e tá bom demais pra mostrar os tupiacanguenses o que é musica eletronica brasileira; ora boa ora ruim,mas que é, é.
    e a entrevista ficou ótima!!!

    Comentário por zubreu — 30 de setembro de 2008 @ 14:38

  2. é bom saber que tem gente se preocupando com esse lado do funk. porque, sinceramente, acho muito triste a apropriação feita pela mídia e pelos ouvintes “do asfalto”.

    eu não gosto nem das letras e nem das produções que conheço, mas também não me sinto interessado em procurar e pesquisar, justamente pela fachada que foi criada para o funk.

    vamos ver se esse doc muda o que eu penso…

    Comentário por Artur Miglio — 30 de setembro de 2008 @ 14:45

  3. como diria meu pai, é tchacacanabuchaca e thecatheca na xereca. (boa entrevista!)

    Comentário por chicotinho de couro — 30 de setembro de 2008 @ 14:54

  4. AH! é TCHACATHACANABUCHACA… escrevi errado no post anterior…. ouié!

    Comentário por xicotinho de couro — 30 de setembro de 2008 @ 14:58

  5. É MUITO BOM SABER QUE EXISTE PESSOAS QUE PENSAM EM DEFENDER ISSO ADORO O MOVIMENTO FUNK MAS ME SINTO MUITO MAU QUANDO OUÇO UM PROIBIDAO. E AS PESSOAS CRITICANDO O FUNK POR CAUSA DO PROIBIDAO SE PENSARMOS BEM, ESSAS PESSOAS TEM RAZAO. E SE ESTIVER DE ACABAR COM ALGUMA COISA DEVERIAM ACABAR É COM O PROIBIDAO.
    MAS DO OUTRO LADO QUNDO OUÇO A (PERLA ,MC MARCINHO E ETC. CANTANDO SUAS MELODIAS É DE DAR GOSTO ESSES MERERECEM SER CHAMADOS DE ARTISTAS. ESTOU ATÉ DOIDO PARA VER ESSE DOCUMENTARIO. PARABÉNS AOS PRODUTORES.

    Comentário por jefferson robert do carmo — 30 de setembro de 2008 @ 15:38

  6. É MUITO BOM SABER QUE EXISTE PESSOAS QUE PENSAM EM DEFENDER ISSO ADORO O MOVIMENTO FUNK MAS ME SINTO MUITO MAU QUANDO OUÇO UM PROIBIDAO. E AS PESSOAS CRITICANDO O FUNK POR CAUSA DO PROIBIDAO SE PENSARMOS BEM, ESSAS PESSOAS TEM RAZAO. E SE ESTIVER DE ACABAR COM ALGUMA COISA DEVERIAM ACABAR É COM O PROIBIDAO.
    MAS DO OUTRO LADO QUNDO OUÇO A (PERLA ,MC MARCINHO E ETC. CANTANDO SUAS MELODIAS É DE DAR GOSTO ESSES MERERECEM SER CHAMADOS DE ARTISTAS. ESTOU ATÉ DOIDO PARA VER ESSE DOCUMENTARIO. PARABÉNS AOS PRODUTORES.

    Comentário por jefferson robert do carmo — 30 de setembro de 2008 @ 15:38

  7. Acho interessante querer mostrar este lado artistico do funk, isso serve para esclarecer algumas opinioes de pessoas que nem sabem do que se trata e ja julgam. Tenho certeza que vai mostrar a parte boa, fazendo assim com que pessoas se apaixonem ainda mas pelo fank.
    Boa sorte!!!

    Comentário por Aline — 30 de setembro de 2008 @ 16:31

  8. Acho interessante querer mostrar este lado artistico do funk, isso serve para esclarecer algumas opinioes de pessoas que nem sabem do que se trata e ja julgam. Tenho certeza que vai mostrar a parte boa, fazendo assim com que pessoas se apaixonem ainda mas pelo fank.
    Boa sorte!!!

    Comentário por Aline — 30 de setembro de 2008 @ 16:31

  9. Pra mim Funk continua a ser uma forma preguiçosa e sem comprometimento de fazer ‘música’…prá que aprender a tocar um instrumento? tem estudar, se dedicar, ter disciplina…ler prá ter cultura…. batidão é a prova que o jovem brasileiro opta cada vez mais por uma ignorância rebelde e desesperançada…. quanto ao lado sensual…bunda rebolando faz sucesso desde que o mundo é mundo, não tem novidade nenhuma e não me venham inventar teorias sobre isso…dói mas é verdade.

    Comentário por Nareal Davida — 30 de setembro de 2008 @ 16:42

  10. A MUSICA É UMA MERDA MESMO, NAO TEM VALOR ALGUM, É RIDICULA AO EXTREMO 99% POR CENTO, CLARO Q SEMPRE TEM O 0.001% Q SALVA, MAS ACHO Q O FILME VAI MAIS POR LADO ANTROPOLOGICO DE ANALISAR A FAUNA MESMO, ENTAO DEVE SER INTERESSANTE.

    Comentário por Anaozinho gigante — 30 de setembro de 2008 @ 20:11

  11. O blog é super bacana!
    Ahazou na colaboração. ( :

    Bjo!

    Comentário por Giselle — 2 de outubro de 2008 @ 16:21

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