Terra Magazine

31 de outubro de 2008

O afropopbrasileiro de Margareth Menezes

repique2008 às 9:25

Margareth Menezes – das rainhas do carnaval de Salvador, com certeza a mais low profile – comemora 20 anos de carreira e lança seu álbum ‘Naturalmente’ em que interpreta composições próprias e de grandes autores da MPB contemporânea. O Repique conversou com ela – sobre música, Bahia, Carnaval, Baile dos Mascarados e outras coisitas…

Repique - Maga, conta um pouco do ‘Naturalmente’.
Margareth Menezes - O CD é um projeto especial, paralelo, que comemora 20 anos de carreira. Foi o Mazzola quem produziu. Canto várias músicas da MPB de autores que gosto – gravei uma música de Chico César, Arnaldo, Nando Reis, Marisa e Pepeu. Faz parte do meu trabalho de pesquisa da MPB. Não faço só músicas de Carnaval, nem meus CDs têm só músicas de carnaval – com certeza é o que mais aparece, mas porque tem mais divulgação. Eu já fiz teatro, comecei minha carreira no teatro – então fui atrás desse lado mais intérprete. Tudo o que é Brasil me interessa. Essa mistura toda.

Ficou bem diferente das suas músicas de carnaval.
Acho engraçado que quando um artista internacional mistura gêneros e influências todo mundo acha lindo. Quando um brasileiro faz isso, todo mundo estranha. Acho um absurdo isso. Por que eles podem e nós não? Ninguém tem o poder de limitar. Quando você faz o mesmo que vinha fazendo, fulano fala ‘fez mais do mesmo’; se faz diferente, eles vêm perguntar. Fernanda Takai fez um álbum de Bossa Nova, Maria Rita fez um álbum só de sambas, e daí? Tem que quebrar esse paradigma.

Mas você está insatisfeita com as críticas?
Não. A crítica é importante. É que eu não deixei de cantar Axé Music. Continuo cantando Axé e mais alguma coisa. Aqui na Bahia temos Raul Seixas, João Gilberto, os cantores da Tropicália, Dorival Caymmi… Então não me vejo limitada. O Carnaval são cinco dias do ano. Depois tem todo o resto do tempo para exercitar minha liberdade. Esse álbum foi um desafio, e o desafio renova.

E como você se vê nesse cenário quântico baiano que você apontou?
Sou só uma cantora (risos). Pertenço a uma geração de música tropical com força em percussão. Assumi minha influência afro, digo que o que faço é afropopbrasileiro – que é muito mais amplo do que axé.

E os shows que você está fazendo no Rio? (Margareth fez shows toda quinta-feira de outubro no Mistura Fina).
Foi legal. É um show experimental, que fiz para acompanhar o lançamento do álbum, mas sem produção ainda. Em março farei o show oficial de lançamento, com cenário, vou para São Paulo… Aqui no Rio foram cinco apresentações. Talvez eu ainda faça mais uma. Depois vou parar e me concentrar no que estou preparando para o Carnaval. Em novembro vou lançar um documentário sobre os blocos afros – cinco deles: o Ilê Aiyê, Malê Debalê, Muzenza, Cortejo Afro e Filhos de Gandhy – blocos que têm um trabalho social lindo - registramos tudo isso, os ensaios e o show que chamamos de ‘O Encontro’, que foi no Teatro Castro Alves com participação de Virgínia Rodrigues, Jeronimo, Daniela Mercury, entre outros.

E os preparativos para o Baile dos Mascarados no ano que vem?
Quinta-feira de carnaval. Assim como foi esse ano, ninguém tem que pagar, mas tem que ir fantasiado. A proposta é ‘vista sua fantasia’.

 

Antes disso, Margareth toca no Bailinho do Rodrigo Penna (RJ), esse domingo, 02 de novembro. Como DJ, ela vai fazer um set de MPB ‘pra frente’ mesclando Pitty, Marcelo D2, Carlinhos Brown, Lenine… Ao todo quinze músicas. De sua autoria, Dandalunda.

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30 de outubro de 2008

O que você não pode deixar de ver no Teatro

repique2008 às 10:12

A nova Marília
Marília Toledo, 30 anos – autodidata, várias peças de teatro no currículo – infantis e adultas. Ela tem a idéia, viabiliza, capta, produz e estréia. Tudo ao mesmo tempo agora. Em uma semana estreou duas novas peças –“ Amor de Servidão” - que levou o escritor Marçal Aquino estrear no teatro, e “Bem Aventurados os Anjos que Dormem”, ambas no Teatro Aliança Francesa (SP), abraçando a causa de fazê-lo voltar à cena. Apontada como o novo rosto do teatro brasileiro, o Repique correu atrás para saber mais.

Qual peça você quer falar primeiro?
O “Amor de Servidão.

Oba!
Então, em 2006 li o livro ‘Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios’, do Marçal Aquino. Eu adorei o livro inteiro, e todos os personagens, mas um deles eu fiquei muito ligada, o Altino (o careca), que me pegou profundamente. Fui até o Marçal e comentei com ele ‘acho que você tem uma peça de Nelson Rodrigues no seu livro’. Ele achou engraçada minha fixação.
Depois o Beto Brant comprou os direitos do livro para o cinema e, passado um tempo, o Marçal contou que eles excluíram toda a parte do Altino, e chegou me avisando “o careca é todo seu”.

Engraçado que é uma história paralela à principal, que é fortíssima. Nunca imaginei que pudesse render tanto…
Sugeri algumas adaptações. Eu gosto muito da imagem da viúva virgem, isso não tem no livro. Montei uma estrutura do personagem enquanto vivia a história, jovem ainda (no livro o careca conta uma história que viveu no passado) - o que fica lindo na literatura dele, em cena poderia se estender demais. Mexi muito, e fiquei tensa dele não gostar. Sugeri personagem novo… Mas o Marçal é super generoso. Ele não tem apego algum.

E o Braz, o diretor, como apareceu?
Chamamos o Braz pela relação dele com Nelson Rodrigues. Foi um puta aprendizado. Eu sou jornalista de formação, não fiz Artes Cênicas. Essa minha coisa com o teatro é autodidata. Escolho sempre trabalhar com quem tem para me ensinar. Tempos atrás, em outra peça, na primeira oportunidade que tive, chamei o Antonio Abujamra, mas ele é louco, foi péssimo. Hoje temos uma relação por e-mail ótima, em que ele sempre assina ‘o amigo que não deu certo’. A gente brigou muito.

Já com o Braz, com certeza eu quero trabalhar de novo. Ele é muito inteligente, tem muitas referências, sempre te estimula. E é um cara que aprendeu a trabalhar com o diálogo no Teatro de maneira muito interessante pelo fato de ter mergulhado em Nelson Rodrigues.

Dá um exemplo.
Nelson Rodrigues é capaz de falar tudo com uma só palavra. Ele insinua. Quando diz, por exemplo, “aqui dentro você só me chama de Doutor” ele já resume que existe uma relação de intimidade entre os personagens.
O Marçal também é super sucinto. E é sempre melhor economizar as palavras.

Me surpreendeu o vazio do cenário. Não tem praticamente nada além dos atores no palco.
A gente sentiu que não precisava de nada. Qualquer coisa a mais seria um excesso. Sujaria.

E a idéia dos comentários do Marçal durante a peça? É engraçado que não é um narrador, é um comentarista mesmo.
Foi uma idéia do Braz, que sugeriu isso na ausência do Marçal, é claro, porque imagina ele é super…
low profile.

E essa sua outra peça ‘Bem Aventurados os Anjos que Dormem’?
É fruto de uma parceria longa com o Kleber Montanheiro. A gente tem quatro peças juntos - infantis e adultas. Estava lendo Hans Andersen para crianças e achei um conto dele para adulto, A Sombra, em que o personagem percebe que sua sombra tem vida. E eu tenho uma relação muito forte com imagem, reflexo, sombra – penso muito sobre o mito de Narciso, o que a gente tem dentro de si, como se enxerga, nosso reflexo, como os outros nos vêem - essa dualidade. Me baseei muito em Dorian Gray, O Médico e o Monstro, Frankenstein… Pirei nessas idéias todas, e comecei a escrever uma história original, sugeri ao Kleber e um ano depois virou um texto.

É um texto original?
Sim. A narrativa não é linear, acontece em quatro décadas – 1913, 1929, 45 e 75. Não é cronológico, vai e volta e as pessoas só entendem tudo quando acaba.

Bem emblemáticas essas datas.
Super simbólicas, permeiam as grandes guerras, queda da bolsa e a década de 70 quando começa a ter uma movimento de liberdade e independência generalizado.
O Kleber acha que é tragicômico. Eu não sei, acho que tem um terror tragicômico.

Sempre tem bastante literatura nas suas produções…
Sempre li muito. Eu não consigo dar uma ‘lidinha’ antes de dormir porque me acende. Fico louca. Mas não consigo fazer literatura.
Só teatro. É uma maneira de ver o mundo. Enxergo o mundo em cena. Tenho uma idéia e logo vem em formato de peça, já ponho na boca de quem sei que vai falar o texto direito.

Aliás, você vai de ponta a ponta nas suas produções, pega o texto, adapta, produz… corre atrás de tudo.
É uma visão de mundo aliada à sorte. Quando criei ‘Amídalas’, eu tinha 21 anos e não queria que fosse um texto para ser engavetado, daí fui atrás, formatar para lei, captar que é complicado, e deu certo porque a peça ganhou prêmio, virou CD… Eu ainda não sou uma dramaturga conhecida. Estou começando a criar nome, ninguém vem atrás de mim ainda, então preciso eu mesma criar as condições de produção.
Uma vez, escrevi o texto e não produzi, quando vi pronto, foi uma decepção, fiquei infeliz. Daí, aprendi a ter o controle, escolher as pessoas com quero trabalhar, e isso faz sentido quando tudo fica pronto e você vê que escolheu as pessoas certas, ou não.

O que é o mínimo que uma pessoa precisa saber de Teatro?
De autores você diz?

De autores, experiências…
Uma pessoa não pode morrer sem antes ter visto um Shakespeare, Moliére, Tchecov e um teatro grego.
Shakespeare é o principal, não falta nada ali. Tem todas as relações e arquétipos – é uma enciclopédia de tipos, situações e relações humanas. Moliére é uma modernização da Comédia Dell’arte. E Anton Tchecov trabalha as relações em outro nível de sensibilidade e sutileza, para muito não significa nada.

"Amor de Servidão" - Sábado (21h30) e domingo (19h) e “Bem Aventurados os Anjos que Dormem” - Quinta e sexta, 21h.
Ambos no teatro Aliança Francesa (R. Gen. Jardim, 182 - Vila Buarque – Centro/ SP Tel.: 3188-4141).

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29 de outubro de 2008

Evento discute o Índice de Felicidade no Brasil

repique2008 às 8:42

por Ana d´Angelo

Hoje, 29 de outubro, o SESC Pinheiros abriga a I Conferência Nacional sobre Felicidade Interna Bruta, o FIB - o novo índice que mede riquezas no lugar do PIB – Produto Interno Bruto – que já é aplicado no Butão.
Vários especialistas, gente da PUC-SP, institutos e ONGs brasileiras querem começar o debate aqui para que o Brasil também comece a adotar esse curioso indicador como um assunto de política pública. Afinal, felicidade interna, bruta ou líquida, todo mundo quer.
O Repique conversou com Susan Andrews, psicóloga e antropóloga pela Universidade de Harvard (EUA) e uma das entusiastas da aplicação do FIB no Brasil.

Discutir felicidade significa discutir o que é importante na vida? Dessa maneira, o conceito não é subjetivo o bastante para buscar um senso comum?
Na última década, um número cada vez maior de cientistas tem se esforçado para decifrar os segredos da felicidade, para estudar a felicidade objetivamente. De fato, uma nova ciência cujo nome em inglês é Hedonics emergiu para estudar aquilo que nos faz felizes, e por quê. Felicidade, algumas vezes chamada pelos cientistas de “bem-estar subjetivo”, tem diversos benefícios físicos, mentais, sociais e profissionais. Pessoas felizes têm sistemas imunológicos mais fortes, e existem algumas evidências de que tenham maior longevidade. Elas exibem melhor desempenho no trabalho, menor absenteísmo, e são mais capazes de lidar com situações difíceis. Elas são mais bem sucedidas: ganham mais, têm melhores casamentos e se saem melhor nas entrevistas de emprego. Além disso, têm maior capacidade de liderança, são mais sociáveis e despertam mais empatia nas outras pessoas. Logo, é definitivamente melhor ser feliz!

Como surgiu o conceito do FIB?
O conceito de FIB – Felicidade Interna Bruta - foi lançado no Butão em 1986, quando o jovem rei Sigme Wangchuck estava sendo questionado por um jornalista sobre o baixo PIB do seu país. O rei então espontaneamente respondeu, “A Felicidade Interna Bruta é mais importante do que o Produto Interno Bruto”. E desde aquela época, o FIB se tornou a métrica para planejar o desenvolvimento econômico do Butão. Nos últimos anos esse conceito tem se tornado cada vez mais atraente num mundo preocupado com o aquecimento global e com os altos níveis de estresse e doenças psicossomáticas. Nossa contínua devoção ao crescimento econômico a qualquer custo, em vez de melhorar nossas vidas, está gerando desigualdade e insegurança. Recentes pesquisas revelaram que o mero crescimento econômico não está nos tornando mais felizes. Nos EUA, onde o PIB triplicou desde os anos 1950, o nível de felicidade na verdade declinou. No Japão a renda per capita quadruplicou entre 1958 e 1986, sem que houvesse qualquer aumento na felicidade. Em um número cada vez maior de países, as taxas de alcoolismo, suicídio e depressão têm crescido dramaticamente, mesmo quando seus cidadãos continuam acumulando cada vez mais coisas.

O que o conceito leva em conta?
As pessoas através do mundo estão se interessando por novos índices para medir o progresso, e os butaneses parecem estar na dianteira. Eles incluíram no seu sistema de mensuração do progresso não apenas o desenvolvimento econômico, não apenas o nível de escolaridade e estado de saúde, mas também a satisfação não material, que tem se provado mais poderosa para a felicidade do indivíduo do que o ganho material. As nove dimensões da Felicidade Interna Bruta são: bom padrão econômico de vida, boa governança, educação de qualidade, boa saúde, vitalidade comunitária, proteção ambiental, acesso à cultura, gerenciamento equilibrado do tempo e bem-estar psicológico.

A ONU está interessada no indicador?
Essa inovadora e compreensiva abordagem do FIB tem mobilizado o PNUD – Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento - no sentido de financiar sua contínua elaboração no Butão. Como o diretor do PNUD para aquele país, Bakhodir Burkhanov, me disse, “uma vez que as Metas de Desenvolvimento do Milênio das Nações Unidas quanto à saúde, educação, proteção ambiental etc., sejam atendidas em um determinado número países na data limite de 2015, necessitaremos de um novo conceito para ser discutido. O FIB pode ser a versão futura das Metas de Desenvolvimento do Milênio – considerando o bem-estar psicológico e a manutenção do equilíbrio da vida. Essas são coisas que serão mais importantes na próxima década”.

O que o Butão tem que impressiona?
Fiquei extremamente impressionada durante a minha recente visita ao Butão. Denominado “Campeão da Terra” pelas Nações Unidas no ano passado, esse país tem 74% do seu território sob proteção ambiental. 90% das suas crianças estão na escola – recebendo educação grátis, cuja alta qualidade é garantida pelo fato de que as professoras fazem um rodízio entre as zonas urbanas e rurais. Todas as pessoas têm acesso à assistência médica, mesmo nos mais remotos vilarejos. O nível de corrupção governamental é extraordinariamente baixo. Como o diretor para UNICEF naquele país me disse admirado, “o Butão é uma referência para o mundo”.

Mas o FIB desvaloriza o progresso material?
O conceito de Felicidade Interna Bruta não implica em negar o progresso material, em adotar uma espartana rejeição do mundo físico. Pelo contrário, representa um harmonioso equilíbrio entre as fontes materiais e sutis de satisfação – uma confortável vida exterior combinada com amorosos relacionamentos e paz interior. Um modelo para o mundo refletir profundamente a respeito, e emular. Em meio a crise financeira global, a visita ao Brasil do principal pesquisador em FIB no Butão, Sr. Karma Ura e do representante internacional em FIB do Canadá, Sr. Michael Pennock, não poderia ser num momento mais apropriado. Com o enorme interesse que suas conferências estão gerando, esperamos que o FIB possa criar um novo rumo para o Brasil.

1ª Conferência Nacional sobre Felicidade Interna Bruta
De 29 de outubro a 02 de novembro, no SESC Pinheiros (SP), das 16h00 às 21h00.

Colaborou Ana d’Angelo

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27 de outubro de 2008

Fotógrafo conta detalhes da pichação na Bienal

repique2008 às 23:48

“A Pichação de São Paulo, ao surgir na década de 80, se tornou uma das intervenções urbanas mais polêmicas e agressivas já vistas, características que tornaram os Pichadores um dos grupos sociais mais marginalizados da cidade de São Paulo”. Mensagem do Flickr do Choque, o fotojornalista que acompanha e registra as ações de invasão que vêm ocorrendo esse ano em São Paulo, na Bienal - noticiado com exclusividade pelo Blog do Repique - (aqui), na galeria Choque Cultural e no prédio da faculdade de Belas Artes.

O Repique conversou com o fotógrafo em busca de mais informações e quem sabe algum esclarecimento sobre essas ações, e se deparou com alguém que tem uma opinião afiada sobre tema tão polêmico. Vamos a ele:

Choque, queria que você comentasse as ações do grupo de pichadores aqui em São Paulo, como a invasão da Bienal nesse último domingo.
Não quero comentar as ações, não sou porta-voz dos caras. Eu não defendo nem ataco essas ações. Tento olhar de fora e entender que isso é fruto da sociedade em que vivemos. A pichação é uma coisa agressiva. Creio que sua estética é agressiva para agredir a sociedade.

E como funciona o esquema, como você participa?
Eles me ligam no dia para evitar vazamento, como ocorreu na Bienal que vazou, ninguém sabe como.
Estou fazendo um documentário em livro sobre a pichação em São Paulo - como aconteceu, quando surgiu, o contexto, o porque das letras serem ilegíveis… Por exemplo, isso é uma comunicação fechada, de pichador para pichador, não é uma frase voltada para uma pessoa alfabetizada. Os pichadores não estão interessados em falar com a sociedade. Ao mesmo tempo, eles se afirmam. É o ‘picho, logo existo’.

Como começou a pichação em São Paulo?
A pichação em São Paulo começou nos anos 80, logo na transição da ditadura para a democracia, no momento em que houve um declínio, uma crise na qualidade de ensino das redes públicas. Os pichadores são fruto social dessa época. Eles não têm repertório para falar nada. Eles não têm o que falar, por isso só escrevem o nome deles ou o nome de seus grupos.
Se você me perguntar qual é o perfil de um pichador, eu entrevisto eles direto, se fizer um censo você vai ver que eles têm família desestruturada, pai omisso, não têm opção de lazer. Eles vêm da periferia, lá tem o quê? Um campinho, uma boca de fumo e um bar. Tem que pegar um busão de duas horas para chegar a um cinema no Centro. A pichação acaba sendo uma forma de lazer, eles estão em busca de adrenalina, uma válvula de escape para agüentar o dia-a-dia nessa sociedade monstra em que vivemos.

Para quando você prevê o lançamento do seu livro?
O lançamento está difícil. Ainda preciso de alguém para diagramar. Ainda mais agora que estão explodindo esses conflitos, e acho que isso tem continuidade, vai demorar para sair, coisa de um ano, um ano e meio.

Como você enxerga as diferenças entre os grupos de grafitti e os de pichação?
Grafitti e pichação nasceram em Nova Iorque, na cultura do Hip Hop, na periferia. Eles têm a mesma origem, mas tomaram rumos diferentes.
O grafitti caiu no gosto estético burguês, foi pra galeria e para os museus. Acho ótimo isso, mas quando surgiu, o grafitti tinha mais frescor, não tinha essa influência comercial que hoje molda o trabalho do cara que grafita nas ruas para fazer nome e vender. É como a indústria fonográfica, que atende aos apelos da cultura de massa e começa a fazer música água com açúcar para vender mais. Hoje, toda a contracultura já nasce morta porque o sistema engloba e vira dinheiro. Existem grafiteiros de todos os perfis, mas o grafitti hoje é uma coisa de classe média / classe média alta, pelo menos. Uma lata de spray custa R$ 15,00. É caro, o pichador não tem acesso a isso, por isso que pichação é monocromática.
O pichador é de classe baixa, vem da periferia. Claro, tem moleque da classe alta também, cara que é considerado no grupo, independente de ser rico ou não, porque o importante é que ele esteja pintando na rua. O que importa é estar na rua.

Queria que você falasse mais sobre as letras dos pichadores, o fato de serem ilegíveis, de ser uma comunicação fechada…
A pichação, quando surgiu, nos anos 80, foi inspirada no logo das bandas de rock, AC/DC por exemplo, que por sua vez são inspiradas no alfabeto rúnico, (letras conhecidas como runas, usadas para escrever línguas germânicas do século II ao XV), descende da cultura dos vikings anglo-saxões, coisa muito antiga.
O processo criativo das letras busca originalidade, pode reparar que nenhuma letra é igual à outra. É um trabalho tipográfico, um prato cheio para um designer.

As letras verticalizadas são uma exclusividade de São Paulo. Só tem aqui pelo fato de a cidade ter muito prédio, ser verticalizada. Eles usam a cidade como um caderno de caligrafia gigante, eles moldam as letras de acordo com essa arquitetura. Como se vê, tem uma cultura por trás disso. Tem um contexto fundamentado.

Sim, é a forma de expressão que encontraram…
A pichação e o grafitti são vandalismo e arte também. Crime e Arte ao mesmo tempo. O grafitti tem essa aura de pintura autorizada, mas não é. É ilegal também. Mas tem apelo estético maior. É colorido, harmônico, tem personagens bonitinhos. A sociedade absorveu o grafitti a partir de 1995, e agora, desde o ano 2000 está bombando. O grafitti no resto do mundo é tratado como crime. É super combatido. Nos Estados Unidos e Europa tem uma unidade de polícia específica, assim como Homicídios, que se chama Vandal Squad. Lá o grafiteiro pega cadeia e paga multa. Um cara recentemente pegou seis anos de prisão em cadeia de segurança máxima, pegaram ele pra Cristo, para assustar mesmo, porque eles dão prejuízo. O grafitti em Nova York morreu, não existe mais como antes.
O cenário aqui é diferente, o grafitti virou um instrumento para combater a pichação. Os caras financiam grafiteiros famosos, contratam para fazer mural e combater a pichação. Mas os pichadores se ligaram disso e já estão atropelando esses trabalhos.

Recentemente entrevistei o Gustavo d’Osgemeos (aqui) e ele comentou que a lei da rua era não atropelar o trabalho dos outros…
Existe uma lei entre eles para não se atropelarem. Mas é anarquia mesmo. Não dá para cobrar respeito. Como pode pedir para um não atropelar o trabalho de outro se ambos não têm respeito pela propriedade alheia?

Mais imagens do fotógrafo em Choque Photos.

Imagens exclusivas da invasão na Bienal, aqui.

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Evento movimenta setor de design em São Paulo

repique2008 às 8:36

Esses dias foram de uma verdadeira invasão de designers, eventos, palestras, exposições, lançamentos de produtos e um roteiro paralelo de estúdios, galerias, museus e lojas para visitação na capital paulistana.
O Repique conversou com a designer Carol Gay para saber os highlights das palestras do Boom Design - evento que ancorou toda essa movimentação.

“O Boom Design foi uma série de palestras com designers e artistas brasileiros e internacionais. As palestras que mais gostei foram:


Chico Bicalho – escultor e fotógrafo, carioca, super ligado às questões de meio ambiente. Ele falou sobre suas criações, os Critters, que são ‘robozinhos’ de corda, não usam pilhas, que são vendidos nas lojas do MoMA e Guggenheim em Nova York, na verdade no mundo inteiro. São muito legais, cada um tem um movimento diferente. Todo o dinheiro que ele arrecada com a venda desses brinquedos é revertido para um projeto de reflorestamento de uma área entre Rio e São Paulo.
Ele acredita que mesmo com a crise, os Critters continuarão a ser vendidos, e que vai aumentar suas vendas – para crianças e adultos, que não querem comprar produtos caros. Lá fora os Critters custam cerca de U$ 9, enquanto aqui cerca de R$ 100, 120 e é super difícil de achar.


Karim Hashid - designer egípcio, hoje vive em Nova York. A palestra dele foi sensacional. Ele falou muito sobre estilo de vida, tecnologia e natureza. Tudo tem que estar integrado e evoluir junto. Ele é muito preocupado com o indivíduo e seu tempo - ‘cria soluções para problemas contemporâneos’. Por exemplo, embalagens de produtos biodegradáveis, em tamanhos pequenos para viagens. Depois de usada, se você jogar a embalagem fora, em um vaso sanitário, ela se decompõe.
Outra coisa que ele está desenvolvendo é design de aparelhos auditivos, que geralmente são sempre feios. O raciocínio dele é ‘se alguém tem deficiência de visão, pode usar óculos de diferentes formatos, cores e design, por que quem tem deficiência auditiva não pode usar um produto que corrija sua deficiência mais bacana?’.
Tudo o que ele produz tem formas arredondadas, tem muita curva. Sua maior referência é a natureza, que é orgânica, não tem uma forma reta. ‘Por que o homem quer criar formas retas? Isso é antagônico’.
Está tendo uma exposição retrospectiva dele no Instituto Tomie Othake.


Greg Foley - é o diretor de design e de criação da revista Visionaire - que revolucionou o formato tradicional de revistas.
Ele contou sobre o processo criativo de cada edição, que os artistas que participam são todos colaboradores convidados, não recebem cachês. Ele mostrou o conceito de cada revista que já publicaram – tem uma que é uma Bíblia, com capa em dourado. A próxima edição será uma maleta com todos os números da Visionaire, desde a edição número 1, vai custar U$ 250mil.”

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26 de outubro de 2008

Pichadores invadem a Bienal SP

repique2008 às 19:22

São Paulo, domingo, 20hs. Foi ainda agora. O grupo de pichadores do movimento intitulado "PiXação: Arte Ataque Protesto" - o mesmo que invadiu a faculdade de Belas Artes e a galeria Choque Cultural - acabou de invadir a 28ª Bienal de São Paulo com suas latas de spray.
Eles ameaçaram pichar os espaços vazios da Bienal, que começou ontem, e assim o fizeram.
Correria, tumulto, os seguranças do evento tentaram impedi-los. Não conseguiram. Todos escaparam ilesos, deixando paredes, colunas e vidros do prédio com as marcas da intervenção - suas assinaturas e palavras de protesto.
A brigada de limpeza já foi ativada.

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25 de outubro de 2008

A matinê de sexta-feira do Tim Festival

repique2008 às 11:47

Tim Festival, São Paulo. Sexta-feira, horário de verão, começa cedo a programação do festival, SETE DA NOITE - uma matinê praticamente, na cidade enlouquecida, começo do fim da semana, todo mundo descendo dos saltos, se desengravatando, trânsito.
Quem vai se abalar até o parque do Ibirapuera nesse horário senão os teens? Que paulistano consegue sair pra dançar antes das 11 da noite?
Realmente o Tim Festival é feito para o Rio de Janeiro, mas tudo bem (lá o festival é noite adentro, aqui tem que acabar à meia noite).

Foi o Teennnnn Festa. Uma mistura improvável de atrações– Junior Boys, Dan Deacon, DJ Switch, DJ Yoda e Gogol Bordello – os ciganos punks do eixo Nova York – Ucrânia, que atraiu levas de ciganos urbanos, nada mais trendy, os gipsy glam. O vocalista, Eugene Hutz que morou no Rio, cantou até Morena Tropicana. Dizem que foi demais, eu não vi.

DJ Switch foi ok. Agora o DJ Yoda emocionou com seus mash ups – colagem e sobreposições – cruzou e remixou música, cenas de cinema e seus diálogos. Apelou para o jeito mais eficiente de se comunicar com o público - palavras no telão, enquanto todos estavam vidrados: “E aí galera de São Paolo?”, “Vamos agitar essa porra”, “Let’s make some noise”.
Trilha sonora de entrada apoteótica de sala de cinema, desfilou Star Wars, ‘Eye of the tiger’ do Peter Frampton remixado com projeção Rocky Balboa, Big Lebowsky, Austin Powers… Simpsons, Mario Bros, hits do Youtube. Uma infinidade de referências. Nada mais pop que cultura americana.
Cruzou gêneros – dançou-se de tudo: Michael Jackson aos nove anos, cantando ABC – “easy as… 1,2,3 or simple as…do re mi, a,b,c, 1,2,3, baby, you and me”. Funk Carioca, Madonna, Rock, House, Disco, Hip Hop, toda a salada e Marvin Gaye – “I heard it through the grapevine, not much longer would you be mine”- o momento mais sexy da noite. Transgêneros. Cruzamos todas as fronteiras.

Essa noite tem mais, no epicentro da cidade, Parque do Ibirapuera todo cenografado, abertura de Bienal, Cérebro Eletrônico, MGMT e The National – outra leva de turmas, dessa vez, os Mutantes – Secos e Molhados – Abravanados - os neo-hippies e os indies melancólicos. Acho que terá mais público dessa vez.

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24 de outubro de 2008

Livro: Como o mundo virou gay?

repique2008 às 8:28

OVER THE RAINBOW
André Fischer, um dos maiores divulgadores e ativistas brasileiros em defesa dos direitos e da cultura LGBT, curador do Festival de Cinema Mix Brasil de Diversidade Sexual, lança o livro “Como o mundo virou gay? – Crônicas sobre a nova ordem sexual” (Ed. Ediouro) e comenta aqui nesse Repique as transformações assistidas e vividas em uma década de causos e causas.

André, conta um pouco sobre o seu livro.
O livro dá uma situada no que aconteceu no mundo nos últimos anos, na última década, a partir de uma maior visibilidade dos gays, da forma como os gays se colocam no mundo e como o mundo os enxerga.
Os textos foram escritos nesse período, desde 1996. É um retrato de cada momento. Tem o calor de vida sendo experimentada. Experiências vistas e vividas e relatos de pessoas muito próximas. Não é um tratado. Tem partes que são explicitamente um diário pessoal e outras que são mais jornalísticas.

Diário pessoal?
A parte diário, em 1ª pessoa, fala das minhas viagens. Tive a oportunidade de viajar e ver a comunidade gay local de mais de 40 países, algumas viagens fiz em função do festival de cinema (Mix Brasil) ou para fazer matérias jornalísticas para revistas de turismo gay outras foram viagens pessoais.

Que lugares você visitou?
De São Francisco - a quintessência de uma cidade gay simpatizante - até Katmandu - em que tudo acontece literalmente nos subterrâneos da cidade, onde tem ponto de encontro de transexuais menores de idade, todos vestidos de sari. Só vendo. Existe vida gay nos lugares onde há a maior repressão. Todos esses locais se transformaram.
Por mais que o presidente do Irã diga que lá não há um homossexual sequer, se eu fosse para lá, provavelmente encontraria uma cena.

Das viagens que fez, em que lugar que você foi e voltou posteriormente você observou maiores transformações?
África do Sul. Fui para lá logo depois do Apartheid e depois voltei há um tempinho, uma diferença de seis anos. Pude ver o florescimento da presença gay numa cidade como Capetown nesse tempo.
Da primeira vez tive que buscar encontrar a cena gay, quando voltei era outra coisa, estava completamente na cara. Não era mais uma coisa de gueto.

E vem cá, por que seu livro presume que o mundo virou gay?
É uma brincadeira, basicamente de heterossexuais, para brincar com essa percepção mainstream de que o mundo está mais gay. O livro foi encomendado e o pedido era que não fosse dirigido para o público gay. Sempre escrevi sabendo que me dirijo ao público gay – que tenho um espaço importante, mas não só, sabia que também seria lido pelo público não gay.
O ponto de interrogação foi uma coisa de última hora da editora. O livro chamaria “Como o mundo virou gay” ponto.

E o que mudou no mundo esses últimos 10 anos?
Primeiro a visibilidade do gays. Antes você era obrigado a se esconder. Depois, como o mundo vê os gays - deixou de ser um estereótipo, foram assimiladas várias formas de ser gay. E terceiro, a incorporação dessa questão e cultura, do mundo ser mais gay mesmo – o homem mudou, a revolução sexual gay… Hoje é mais difícil bater o olho e ver quem é hétero e quem é gay – não porque o mundo está mais hétero, mas porque o mundo está mais gay. Todo mundo foi relaxando e podendo assimilar um monte de coisa bacana e positiva que existe nessa cultura. É um processo que estamos vivendo.

E no Brasil, o que mudou?
O ganho de visibilidade foi radical. Era uma coisa mantida embaixo do cobertor e de repente teve um “destape” como bem dizem os espanhóis. Foi muito rápido como em nenhum outro lugar. São Paulo foi uma das últimas grandes cidades do Ocidente a ter Parada Gay, Buenos Aires já tinha há dez anos, Lima no Peru tinha, no México… Em seis anos, saímos do maior atraso para a maior parada gay do mundo.

O processo foi muito rápido mas não foi acompanhado de ganho de direitos civis. Existe um descompasso. Em Portugal, onde não há parada gay, nem a visibilidade que tem aqui, já tem casamento civil e agora já estão tratando de adoção, fala-se abertamente no ‘Jornal Nacional’ de lá. Não se trata de uma “causa gay”, é uma questão de direitos civis.

E aproveitando o fim-de-semana de eleições, existe alguma cidade brasileira preparada para ter um prefeito ou prefeita gay?
São Paulo? Essa polêmica que houve entre o Kassab e a Marta foi um dos fatos mais interessantes de todos os tempos porque ganhou manchete no país inteiro e houve um consenso em todos os editoriais de imprensa de como é um absurdo questionar a capacidade de administrar uma cidade em função da opção sexual. Pegou tão mal que acabou criando um consenso de que essa questão não é importante.
Isso preparou a sociedade brasileira para um político bem resolvido no foro íntimo assumir sua orientação sexual publicamente. Essa polêmica abriu as portas do armário.

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23 de outubro de 2008

Escritores viram DJ em festa de editora virtual

repique2008 às 8:01

por Maria Lutterbach

Se toda boa história merece trilha sonora, também é verdade que discos podem render literatura. Partindo desta premissa, a editora virtual Mojo Books começou a publicar na internet livros inspirados em pérolas do Depeche Mode, New Order, Tim Maia e Cartola.
Com a idéia, os criadores Danilo Corci e Ricardo Giassetti abriram espaço para autores não-publicados e veteranos transformarem música em contos. Depois de quase dois anos na ativa e 80 livros liberados para download no www.mojobooks.com.br, a editora virou festa ao convidar autores e gente de banda para atacarem de DJ na noite intitulada Mojo Club.

O movimento é toda quinta e já segue para o segundo mês de buena onda no Tapas, casa nova e bacana recém-aberta na rua Augusta. Por ali já passaram discotecagens de mãos escritoras - como as de Clarah Averbuck e Mario Bortolotto - e mãos musicais -, como Vanessa, do Ludov e Gustavo, do Forgotten Boys. Entre novembro e dezembro, o Mojo Club vai apresentar a faceta DJ dos escritores Andréa Del Fuego, Xico Sá, Cristiane Lisbôa e Marcelino Freire.


Andréa Del Fuego (foto: Edinho Kumasaka)

As DJéias da noite de hoje, Andréa e Cris, avisam que quem aparecer por lá vai escutar de Vive La Fête e Rita Cadillac a trilha de filme pornô dos anos 70. “Nunca dei som em festa, nem em casa sou de ficar colada ao aparelho de som. Boto o CD preferido e me espalho na preguiça. Não deixa de ser como uma edição de texto, você escolhe os contos preferidos e publica em livro. Aqui, você escolhe as faixas e bota pra tocar, não deixa de ser autoral”, arrisca Andréa.

Autora dos livros de contos “Minto enquanto posso”, “Nego tudo” e “Engano seu”, ela também assinou o Mojo número 34, “O Implicante”, inspirado na trilha sonora do clássico cult “Blade Runner”. “O filme foi baseado no romance ‘O Caçador de Andróides’, de Philip K. Dick, ou seja, a origem do disco é um filme, a origem do filme é um livro”, defende.

Prestes a lançar numa só tacada dois livros pela Mojo Books em parceria com a designer Haydée Uekubo, Cristiane Lisbôa também entrega que nunca gravou um CD na vida e que pediu ajuda ao amigo (e também escritor) Santiago Nazarian para fazer a seleção. “Vou tocar só coisas surreais”, diz ela. Além de editar a revista “Simples”, Cris toca sua própria mini-editora, a Fina Flor, que tem no catálogo a amiga Andréa e nomes como Pinky Weiner e Xico Sá.

Por falar nele, os desavisados que se preparem porque no dia 20 de novembro, Xico vai estar na cabine do Tapas mostrando uma discotecagem com “lo mejor del portuñol selvagem”. “Nunca toquei por não enxergar os botões ou os vinis, mas agora de óculos nuevos e doze margueritas después…me aguardem! Serão guarânias, boleros, cumbias anticlericais para acordar o Papa, cha-cha-chas, syboneis, La Lupe, mariachis, Wander Wildner y Elvis em sua fase mexicana”, anuncia o escritor, que assim como Marcelino Freire, promete para breve seu Mojo Book.

A história do cabrón já tem enredo pronto e inspiração no filme “Fun in Alcapulco”, de Elvis. “Um ídolo norte-americano que tem a sua fortuna diluída no crash da Bolsa - qualquer semelhança com a quebradeira das gravadoras majors terá sido coincidência - e busca emprego em uma banda de mariachis no velho México. Breve na beira desta piscina!”.
Colaborou Maria Lutterbach

Mojo Club, toda quinta-feira, a partir das 18h.
Tapas (r. Augusta, 1.246, Consolação)
Hoje, 23/10: Andréa Del Fuego e Cris Lisboa nas picapes até 23h (entrada grátis). A partir de 23h, show com Tetine – entrada: R$ 25 ou R$ 15 (lista no www.tapasclub.com.br)

Mais sobre a Mojo Books:
www.mojobooks.com.br
www.mojobooks.com.br/blog

Blog dos autores que discotecam no Mojo Club:

Andréa Del Fuego (www.delfuego.zip.net)

Cris Lisboa (www.cristianelisboa.zip.net)

Marcelino Freire (www.eraodito.blogspot.com)

Xico Sá (www.carapuceiro.zip.net)

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22 de outubro de 2008

O filme em que a platéia toda sai perturbada

repique2008 às 9:04

“Sinédoque, Nova York” - o filme em que o roteirista Charlie Kaufman - "Brilho eterno de uma mente sem lembranças" (2004), de Michel Gondry, "Adaptação" (2002) e "Quero ser John Malkovich" (1999) - estréia na direção foi exibido ontem na Mostra de São Paulo, em uma sala lotada. Os ingressos haviam se esgotado horas antes da sessão.

Charlie Kaufman virou um gênero em si
De difícil compreensão, “Sinédoque, Nova York” não tem silêncios. É feito de uma quantidade sem fim de diálogos e locações. Não há freios para o roteirista, agora também diretor, e isso pode ser um problema.

Dessa vez, com Phillip Seymour Hoffman na pele de um perturbado diretor de teatro que se complica existencial e afetivamente durante a preparação de uma produção monumental, com centenas de atores e sets, incluindo aí uma réplica de Nova York. A peça levará absurdos 17 anos para ficar pronta. O texto: A Morte do caixeiro viajante, de Arthur Miller, que se prestará a filosofar sobre rotina, dia-a-dia, solidão, morte e o vazio da vida.

Paralela a essa história, em sua vida pessoal, o diretor, Caden Cotard, descobre ter sicose - uma doença de pele, que, como o personagem bem coloca para a sua filha, “para virar psicose basta apenas uma letra”. Não demora para Caden achar que vai morrer logo.

“Uma complicada realidade alternativa perfeitamente consistente”
Work in progress, em seu processo criativo sem fim, o diretor acaba incorporando seu drama pessoal ao enredo da peça que está montando e aí começa a grande confusão que o roteirista é mestre: realidade e ficção se confundem, enredo e elenco se fundem com a vida do diretor. Todos entram em seu ciclo de morte.

Zero ação
Não à toa, a saga já se anuncia em seu título, ‘sinédoque’ é um tipo de metonímia em que a parte substitui o todo e o gênero toma o lugar da espécie. Paranóia, medo, ansiedade, vício em medicamentos - existe uma gestação de loucos vivendo suas verdades, o sinal dos tempos, um Blindness de neuróticos, e não há nada que se possa fazer por isso.

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