Um ano na internet vale por dez anos solares
A últimíssima edição do CardosOnline.
Se não um dos mais famosos zines virtuais, um dos pioneiros, o CardosOnline edita sua última pílula de textos – uma comemoração de 10 anos desde a sua primeira edição.
Foram três anos de existência e sete de descontinuação.
E colaboradores de peso, um “octeto imutável”, (entre eles Daniel Galera, Clarah Averbuck, Daniel "Mojo" Pellizzari) que mais tarde estourariam em férteis campos literários, comerciais ou alternativos. CardosOnline fez história. O Repique conversou com um dos seus fundadores, o Cardoso em si.

Como surgiu o mais famosos zine virtual dos idos dos fim dos anos 90?
Mais famoso e ÚNICO. Zine virtual, enviado por e-mail uma ou duas vezes por semana (variou muito ao longo dos anos), situado ainda num mundo pré-blogs. Flash, Ajax, comentários, redes sociais e todas essas firulas da Web 2.0. ainda nem existiam.
Haja pioneirismo. Você encerrou quando todo mundo começou a pensar em começar…
Como eu sempre digo, foi um grande acidente. Eu tinha acabado de entrar na Fabico - a Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da UFRGS - localizada em Porto Alegre, e consegui ter apenas o primeiro semestre de aulas. Antes de começar o segundo, iniciou-se uma GREVE, que duraria quase oito meses. Mas nos primeiros seis meses do curso, de qualquer forma, convivi bastante com os meus colegas e tive pelo menos uma aula realmente excelente, com o Doutor Paulo Seben, chamada PORTUGUÊS UM. Por ter um programa muito flexível e alunos que julgou (por motivos que só ele próprio entende) capazes, o Seben transformou a aula em um laboratório de textos, onde todos tinham de escrever, ler e debater os textos escritos pelos colegas, sem exceções. Entre estes colegas, estavam Marcelo Träsel, Daniel Galera, Felipe Becker, Márcio Brodt, Luiz Rubina e outros que ajudariam a formar o primeiro grupo de leitores e colaboradores do CardosOnline.
De qualquer forma, as discussões nas aulas do Seben ajudaram a despertar ou aprofundar o nosso gosto por ler e escrever e discutir o que se lia e escrevia. O problema é que com a greve, as discussões se interromperam. Não existia mais a possibilidade de juntar aquelas pessoas para ler, escrever e discutir seus textos. Mas havia a internet. Era um troço novo, misterioso, desconhecido. Ao mesmo tempo, para um estudante de comunicação que sempre gostou de videogames e computadores, parecia o paraíso. Para muitos de meus colegas, também. E isso fez com que um fenômeno estranho ocorresse: quando a greve começou, eu tinha poucos telefones para ligar (os celulares não eram assim tão populares em 98), mas e-mails de praticamente todo mundo. Eu morava na Medianeira, um bairro um tanto afastado do Bom Fim e das cercanias da Fabico, mas queria manter contato com os meus amigos e sentia vontade de seguir mostrando meus textos pra eles. Então, numa tarde de ócio qualquer de um desses meses mais quentes do ano, peguei dois textos que havia escrito nos últimos dias e colei num e-mail. Como na época eu queria escrever em REVISTAS, tratei de acrescentar também algumas resenhas de CDs que havia comprado, comentários sobre filmes muito ruins ou muito bons que havia visto. E como estava usando o e-mail, acima de tudo, para me aproximar das pessoas de alguma maneira, incluí alguns fragmentos de interesse que havia vivido nos últimos dias: opiniões e fatos. Coisas que haviam acontecido comigo ou que eu pensava. Mandei essa salada pras cerca de 20 pessoas que haviam sido meus colegas na aula do Seben (e mais uma meia dúzia de amigos do peito) todos os dias, por uma ou duas semanas, acrescentando sempre no próximo e-mail os comentários individuais que eram feitos só pra mim. Aos poucos, outras pessoas passaram a enviar seus próprios textos, suas próprias resenhas de CDs e filmes e livros, suas próprias impressões sobre a vida e o mundo. Eu então passei a montar tudo de uma forma mais ou menos lógica, separando o e-mail por seções específicas. Não demorou muito pro Felipe Becker batizar o periódico de CardosOnline (já que era eu quem escrevia a maior parte dos textos) e nem pro Daniel Galera me pedir o meu telefone pra me ligar e propor a transformação do que era um exercício literário de uma pessoa só em um fanzine por e-mail.
No dia 05 de outubro de 1998, pouco mais de cinqüenta pessoas
devem ter recebido aquela que seria a primeira edição oficial do CardosOnline.
Acabou fazendo história, porque disso decorreu um grupo que se espalhou em revistas, fez livros, livros que viraram filmes, roteiros…
Não sei se fiz história ou se simplesmente naveguei no fluxo dela - o que me parece bem mais plausível. Fato é que fiz ALGUMA coisa. Não fiquei parado esperando o mundo acontecer, e isso sim é digno de nota.
Rola até um Bailão em seu nome, o Bailão do Cardoso…
Aqui em Porto Alegre existem as tradicionais bailantas de fim-de-semana, lugares onde se toca ou música de salão ou música gauchesca, e a rapaziada da SEGUNDA e TERCEIRA idades se reúnem pra formar pares. Pois bem. Um desses lugares é o notório Bailão do Velho Cardoso, localizado na Bento Gonçalves (por sinal, não sei se ainda está em atividade). Como eu era o Cardoso e o fanzine era o CardosOnline, pareceu um trocadilho esperto convocar as pessoas para o Bailão do Velho CardosOnline quando a oportunidade surgiu, então foi o que fizemos. A idéia de fazer as festas rolou porque tínhamos menos de vinte ou vinte e poucos anos, e costumávamos sair praticamente todas as noites. O nosso número de assinantes havia crescido de forma absurda entre outubro de 98 e janeiro de 99 (já estávamos na faixa dos 300 ou 400) e achamos que poderia ser uma boa idéia criar uma forma de encontrar essa rapaziada no mundo real, pra beber, falar, curtir música e tudo o mais que a noite deixasse rolar. A primeira da série de 13 ou 14 festas foi realizada em uma segunda-feira chuvosa de janeiro, no antigo e saudoso Garagem Hermética do Léo e do Ricardo, e reza a lenda que a baixa adesão do público foi devida ao fato de muita gente ter pensado que ia rolar, mesmo, um verdadeiro FANDANGO de TIOZINHO no lugar.
Como você acha que rolou tamanha projeção com algo tão despretensioso?
Sobre a projeção, o que posso dizer é que todas as condições eram favoráveis para isso. A internet estava recém começando a ser inventada, e como todos já viram nesses últimos dez anos, ela detém o potencial até então inimaginável de transformar QUALQUER COISA em um sucesso. Basta estar no lugar certo na hora certa, captando o ZEITGEIST e traduzindo da forma mais adequada. O problema é que isso não me parece ser, em nada, um ato consciente. Como eu disse: tudo que aconteceu desde o início do COL até aqui, pra mim, é um grande acidente. Mas suspeito que o fato da gente fazer o que a gente gosta de fazer só por gostar de fazê-lo também ajudou bastante.
E por que vocês descontinuaram o CardosOnline?
Por que o formato tinha se esgotado. Se você parar para pensar, com três anos de duração, o CardosOnline até que foi um projeto bastante longevo na internet, especialmente se levarmos em conta que aqui o tempo não passa da mesma forma que no mundo real. Assim como um ano humano corresponde a 7 ou 8 de um cão, um ano de internet corresponde a 10 anos solares. Isso acontece por conta da velocidade das revoluções no ambiente digital. Mas enfim, tergiverso. Parei com o COL depois de quase 300 edições (foram 278 oficiais e diversas edições especiais). Quase 10 mil páginas de texto. Quer dizer, já tínhamos falado o suficiente. Pra completar, a própria estrutura da internet foi mudando, e não tinha mais sentido enviar 40 páginas de texto puro toda semana prum sujeito que nem lia mais aquele calhamaço todo.
Como você enxerga essa trajetória de mudança na internet ao longo desses dez anos de estrada?
Putz, mudou tanto que não teríamos nem espaço nem tempo pra começar a discutir. Mesmo assim, deixa eu te dar um exemplo bem superficial de como as coisas mudaram. Por mais que a internet tenha criado um ambiente teoricamente infinito, que desrespeita tanto as noções de tempo quanto espaço, é praticamente impossível segurar a atenção do leitor/espectador/usuário por um tempo muito superior aos 5 minutos em um mesmo vídeo, texto ou imagem. Mas ao somar o tempo diário consumido na leitura de pequenos textos, assistência de pequenos vídeos e observação rápida de fotos, chegaremos a valores bastante altos de dedicação a todas estas atividades. Eu chamo esse paradoxo de TEORIA DO CHURRASCO. Funciona da seguinte forma: quando tu tem pouca carne, mas muitos convidados em um churrasco, a maneira mais adequada de servir a carne é em porções grandes. Quem serve-se de uma porção grande tende a não repetir muitas vezes, e na maioria delas fica pelo primeiro prato mesmo. Já na situação inversa, um churrasco com muita carne e poucos convidados, o mais indicado a fazer é PICAR a carne. Beliscar, sobretudo na situação informal de um churrasco, é muito mais prazeroso do que sentar-se e usar os talheres para destrinchar. Assim, é possível que o grupo pequeno de pessoas consuma muito mais carne do que o grupo grande simplesmente por conta da FORMA com que ela lhes foi apresentada. O consumo de conteúdo na internet funciona do mesmo jeito. Pouca gente vê um vídeo com mais de 15 minutos no YouTube, mas por outro lado é muito raro que alguém veja apenas UM vídeo quando entra no site. Ao final do dia, é muito provável que um usuário tenha passado duas ou três horas navegando por entre vídeos de dois a quatro minutos, acumulando um tempo total de exibição muito maior do que os 15 minutos que renegou no início. Em outras palavras: para a maioria dos usuários, o conteúdo PICADO funciona melhor; mas a minoria de usuários que prefere o BIFE não pode ser desprezada.
E isso que nem estamos falando de romances em SMS, vendas de ringtones e o crescente mercado de games para celulares.
Pra entender a produção de conteúdo na internet e a própria internet, em si, é preciso saber apenas uma coisa: não existem certezas. Tudo muda o tempo todo.
Acho muito curioso que nenhum oportunista tenha escrito um livro sobre
como a internet é semelhante ao BUDISMO. Aposto que seria um tremendo best-seller no meio empresarial.
Por fim, dizem que você tem tatuagens maravilhosas pelo corpo…
Tatuagens maravilhosas? Hahahah!! Tenho duas, só, uma em cada braço. Uma vez, no Rio de Janeiro, uma menina chegou e disse "Caraca, maluco, você tem o Nando Reis tatuado no seu braço", mas não é. Também já ouvi que é "tua caricatura" e "o bichinho do HAM-HAM", mas são todas alternativas erradas. Trata-se do Jardineiro Willie, único personagem ruivo d’Os Simpsons, cuja cabeça tatuei no braço direito em 2002 e no esquerdo em 2005. Por que eu fiz? For the lulz. (algo como rir da desgraça alheia, no caso, ao contrário, dele próprio).
Como você se apresenta?
Ficcionista y não-ficcionista, gongorista, jornalista, roteirista, consultor criativo, webshaman extraordinaire, webdesigner autodidata, desenhista, preparador de original, tradutor, intérprete, produtor musical, DJ, MC, demonstrador e vendedor de aparelhos de monitorização vital, pior fotógrafo do mundo, bon-vivant e modelo, André Felipe Pontes Czarnobai nasceu no dia 27 de maio de 1979 em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil.
Mais do Cardoso, aqui: www.qualquer.org/cardoso
Farsa.
Comentário por Daniel Galera — 6 de outubro de 2008 @ 11:50
me disseram que o cardozzzo era uma mulher… sei não, hein?!…
Comentário por liu — 6 de outubro de 2008 @ 14:43
cardoso é gato.
Comentário por dante — 6 de outubro de 2008 @ 21:56