O que você não pode deixar de ver no Teatro

A nova Marília
Marília Toledo, 30 anos – autodidata, várias peças de teatro no currículo – infantis e adultas. Ela tem a idéia, viabiliza, capta, produz e estréia. Tudo ao mesmo tempo agora. Em uma semana estreou duas novas peças –“ Amor de Servidão” - que levou o escritor Marçal Aquino estrear no teatro, e “Bem Aventurados os Anjos que Dormem”, ambas no Teatro Aliança Francesa (SP), abraçando a causa de fazê-lo voltar à cena. Apontada como o novo rosto do teatro brasileiro, o Repique correu atrás para saber mais.
Qual peça você quer falar primeiro?
O “Amor de Servidão.
Oba!
Então, em 2006 li o livro ‘Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios’, do Marçal Aquino. Eu adorei o livro inteiro, e todos os personagens, mas um deles eu fiquei muito ligada, o Altino (o careca), que me pegou profundamente. Fui até o Marçal e comentei com ele ‘acho que você tem uma peça de Nelson Rodrigues no seu livro’. Ele achou engraçada minha fixação.
Depois o Beto Brant comprou os direitos do livro para o cinema e, passado um tempo, o Marçal contou que eles excluíram toda a parte do Altino, e chegou me avisando “o careca é todo seu”.
Engraçado que é uma história paralela à principal, que é fortíssima. Nunca imaginei que pudesse render tanto…
Sugeri algumas adaptações. Eu gosto muito da imagem da viúva virgem, isso não tem no livro. Montei uma estrutura do personagem enquanto vivia a história, jovem ainda (no livro o careca conta uma história que viveu no passado) - o que fica lindo na literatura dele, em cena poderia se estender demais. Mexi muito, e fiquei tensa dele não gostar. Sugeri personagem novo… Mas o Marçal é super generoso. Ele não tem apego algum.
E o Braz, o diretor, como apareceu?
Chamamos o Braz pela relação dele com Nelson Rodrigues. Foi um puta aprendizado. Eu sou jornalista de formação, não fiz Artes Cênicas. Essa minha coisa com o teatro é autodidata. Escolho sempre trabalhar com quem tem para me ensinar. Tempos atrás, em outra peça, na primeira oportunidade que tive, chamei o Antonio Abujamra, mas ele é louco, foi péssimo. Hoje temos uma relação por e-mail ótima, em que ele sempre assina ‘o amigo que não deu certo’. A gente brigou muito.
Já com o Braz, com certeza eu quero trabalhar de novo. Ele é muito inteligente, tem muitas referências, sempre te estimula. E é um cara que aprendeu a trabalhar com o diálogo no Teatro de maneira muito interessante pelo fato de ter mergulhado em Nelson Rodrigues.
Dá um exemplo.
Nelson Rodrigues é capaz de falar tudo com uma só palavra. Ele insinua. Quando diz, por exemplo, “aqui dentro você só me chama de Doutor” ele já resume que existe uma relação de intimidade entre os personagens.
O Marçal também é super sucinto. E é sempre melhor economizar as palavras.
Me surpreendeu o vazio do cenário. Não tem praticamente nada além dos atores no palco.
A gente sentiu que não precisava de nada. Qualquer coisa a mais seria um excesso. Sujaria.
E a idéia dos comentários do Marçal durante a peça? É engraçado que não é um narrador, é um comentarista mesmo.
Foi uma idéia do Braz, que sugeriu isso na ausência do Marçal, é claro, porque imagina ele é super…
low profile.
E essa sua outra peça ‘Bem Aventurados os Anjos que Dormem’?
É fruto de uma parceria longa com o Kleber Montanheiro. A gente tem quatro peças juntos - infantis e adultas. Estava lendo Hans Andersen para crianças e achei um conto dele para adulto, A Sombra, em que o personagem percebe que sua sombra tem vida. E eu tenho uma relação muito forte com imagem, reflexo, sombra – penso muito sobre o mito de Narciso, o que a gente tem dentro de si, como se enxerga, nosso reflexo, como os outros nos vêem - essa dualidade. Me baseei muito em Dorian Gray, O Médico e o Monstro, Frankenstein… Pirei nessas idéias todas, e comecei a escrever uma história original, sugeri ao Kleber e um ano depois virou um texto.
É um texto original?
Sim. A narrativa não é linear, acontece em quatro décadas – 1913, 1929, 45 e 75. Não é cronológico, vai e volta e as pessoas só entendem tudo quando acaba.
Bem emblemáticas essas datas.
Super simbólicas, permeiam as grandes guerras, queda da bolsa e a década de 70 quando começa a ter uma movimento de liberdade e independência generalizado.
O Kleber acha que é tragicômico. Eu não sei, acho que tem um terror tragicômico.
Sempre tem bastante literatura nas suas produções…
Sempre li muito. Eu não consigo dar uma ‘lidinha’ antes de dormir porque me acende. Fico louca. Mas não consigo fazer literatura.
Só teatro. É uma maneira de ver o mundo. Enxergo o mundo em cena. Tenho uma idéia e logo vem em formato de peça, já ponho na boca de quem sei que vai falar o texto direito.
Aliás, você vai de ponta a ponta nas suas produções, pega o texto, adapta, produz… corre atrás de tudo.
É uma visão de mundo aliada à sorte. Quando criei ‘Amídalas’, eu tinha 21 anos e não queria que fosse um texto para ser engavetado, daí fui atrás, formatar para lei, captar que é complicado, e deu certo porque a peça ganhou prêmio, virou CD… Eu ainda não sou uma dramaturga conhecida. Estou começando a criar nome, ninguém vem atrás de mim ainda, então preciso eu mesma criar as condições de produção.
Uma vez, escrevi o texto e não produzi, quando vi pronto, foi uma decepção, fiquei infeliz. Daí, aprendi a ter o controle, escolher as pessoas com quero trabalhar, e isso faz sentido quando tudo fica pronto e você vê que escolheu as pessoas certas, ou não.
O que é o mínimo que uma pessoa precisa saber de Teatro?
De autores você diz?
De autores, experiências…
Uma pessoa não pode morrer sem antes ter visto um Shakespeare, Moliére, Tchecov e um teatro grego.
Shakespeare é o principal, não falta nada ali. Tem todas as relações e arquétipos – é uma enciclopédia de tipos, situações e relações humanas. Moliére é uma modernização da Comédia Dell’arte. E Anton Tchecov trabalha as relações em outro nível de sensibilidade e sutileza, para muito não significa nada.
"Amor de Servidão" - Sábado (21h30) e domingo (19h) e “Bem Aventurados os Anjos que Dormem” - Quinta e sexta, 21h.
Ambos no teatro Aliança Francesa (R. Gen. Jardim, 182 - Vila Buarque – Centro/ SP Tel.: 3188-4141).