Cultura da noite e as festas que estão pegando

Hoje é dia de Party Íntima, a noite do publicitário Rafael Urenha que começou com trinta pessoas e virou hit, sai até nos guias do Estadão e Folha. Não é um caso isolado. É uma onda de festas que acontecem na cidade, cada uma com sua identidade, reúnem seus grupos, têm seus códigos e registros em blogs – formam uma comunidade. O Repique foi atrás de fazer uma radiografia dessa cena:

(O Rafael, à esquerda)
Rafael, conta um pouco como começou a Party Íntima, traduz um pouco o universo que ela representa.
Bom, eu sou publicitário, mas há muito tempo, eu tenho uma ligação muito forte com música; há dez anos, comecei a viajar em torno de festivais internacionais. Tirava férias em função de ver shows, sempre curti ver bandas de rock. Nos últimos tempos, o rock foi indo em direção da música eletrônica, com essas denominações estranhas – ‘New Rave’, ‘Disco-Punk’, ‘Electro-Rock’ – essas definições que nem sei o que é. E percorrendo esse caminho fui parar na noite, indo parar em baladinhas que não eram lugares de ‘música eletrônica’- ou techno - que não é minha praia. Descobri nessas viagens, em Londres e Nova York, que era possível um outro tipo de balada que não estava vendo por aqui, com guitarra na pista, rock & roll e todo mundo dançando. Aqui eu sentia falta dessa cena.
Engraçado que se olhar mais pra trás, isso era o básico, rolava Rolling Stones há pelo menos três, quatro décadas…
O boom da música eletrônica nos anos 90 virou sinônimo de balada. Tudo era ‘Technera’, ‘pôperô’. Isso virou o mainstream.
O rock ficou na toca.
Acho que teve a volta do rock com bandas como White Stripes e Strokes. Foi o resgate. O rock se restabeleceu na pista em coisa de três anos.
Isso pelo lado da música. Do ponto de vista de comportamento, o indie também foi pra pista – o jeito de se vestir diferente. Em Londres tinha a noite ‘Trash’ de segunda-feira no clube The End, durou 10 anos, era a festa do Erol Alkan. Foi uma festa símbolo desse resgate com o pessoal com um certo tipo de look – indie, vintage – inclusive tinha ‘door police’, não entrava qualquer pessoa.
Em Nova York a noite que pegava era a Misshapes, que tinha a cultura de se fotografar na noite e postar no dia seguinte. Você se identificava com um tipo de música, ia na balada que rolava esse som, e no dia seguinte entrava nos blogs para ver as fotos da festa.


Toda uma cultura em torno…
As festas foram ficando maiores que os lugares onde aconteciam. Até na Party Íntima acontece isso, acontece no (clube) Audiodelicatessen, pouca gente sabe o que é isso, vão pela festa.
Como foi o começo da Party Íntima em si?
Eu não tinha a menor conexão com a ‘noite’. Não era DJ, nunca fiz curso. Tenho uma coleção enorme de CDs que eu só tocava em casa. Daí arrumei um espaço para comemorar um aniversário meu, com 30 pessoas. Foi a primeira Party Íntima. Dois meses depois, teve o aniversário de mais um amigo, que quis comemorar no mesmo esquema. Eram ainda festas pingadas, uma aqui, outra ali depois de três meses, que rolavam numa loja de CDs, em Pinheiros, na Indie, que nem existe mais porque hoje ninguém mais compra CDs. Com o tempo, esse espaço ficou pequeno, de 30 pulou para mais de 100 pessoas.
O que faz a festa são as pessoas se conhecerem, o som, e o clima. Virou uma micro-comunidade. Agora é todo mês – uma vez por mês. Sempre às sextas. Com um som moderno de pista, não sei definir, mas se perguntam, digo ‘música que faz as meninas dançarem, porque se as meninas estão dançando os caras estão felizes’.
Daí começou o lance das fotos - que foi outro boom, de três anos pra cá – de festas que publicavam fotos – Last Night Party, Cobrasnake… a loucurada que rolava nas festas com uma linguagem fotográfica bacana – um tipo de fotografia que foi ficando em voga.
Mais de comportamento.
Sim, que faz uma tomografia light da realidade da festa. E eu quis dar essa cara, sugerindo que ali valia tudo.

Virou uma cena.
A Party Íntima não é precursora nem representativa. Até porque é pequena. Mas o cenário andou todo para o mesmo lado. Se você pegar um guia de fim de semana vai encontrar pelo menos seis festas indies, com essa mesma variação – o som, o jeito de se vestir, festas em versão virtual, com blogs, mostrando uma preocupação das pessoas em irem ‘montadas’, de ter um estilo de se vestir.
A Vai! (festa que acontece no clube Glória), por exemplo, é isso. Não é só ir para um lugar pelo lugar. A festa é maior que o lugar. Não é mais como ir na Lov.e – que sempre foi pelo lugar e que você não lembra de nenhuma festa lá.
E qual é a essência da Party Íntima em si?
O que é legal é ser desencanada. As pessoas não vão na festa pelo DJ que vai tocar. Não coloco essa informação nos flyers. Quem eu chamo não tem nome, geralmente é um amigo que eu gosto do som que toca, vai lá e experimenta. Ninguém ali é profissional porque isso não interessa, não importa. É mais informal e não quero que perca essa graça. Não quero que vire uma coisa monstra para 700 pessoas, e que depois comentem “era bom quando era íntima”.
Tem o fato também de eu distribuir máscaras, uns brindes, tipo chupeta que pisca para pendurar no pescoço, que tem um efeito muito legal na festa, porque você coloca e você não está mais fazendo pose, porque está à beira do ridículo. Todo mundo entra em outro clima. Lá tudo pode acontecer. Todo mundo desencanado, embalado por um verniz de putaria light.
E hoje, que som vai rolar? Solta as dicas…

Ladyhawke. www.myspace.com/ladyhawkerock

Pnau.
www.myspace.com/pnaupnau
Heartsrevolution.
www.myspace.com/heartsrevolution

The Whip.
www.myspace.com/thewhipmanchester