Terra Magazine

24 de novembro de 2008

Goiânia Noise: mistura do rock nacional com gringo

repique2008 às 8:37

Fim de semana de Goiânia Noise, o festival de rock que há 14 anos une o melhor da cena local goiana a bandas de dentro e fora do país.
O Repique se mandou para lá para conferir.

Por Fergs Heinzelmann
(Fotos: Laila de Castro)

Primeira noite – sexta-feira
Tantas bandas gringas - da Argentina, Inglaterra, Finlândia e Bélgica - e os headliners Helmet, Vaselines e Black Mountain aqui no Goiânia Noise são apenas um detalhe em meio a tanta coisa bacana e interessante para se ver. Na primeira noite de Festival, pude comprovar, porque Goiânia é conhecida como a "Seattle brasileira", fazendo um paralelo com a cidade americana que na década de 90 revelou as famosas bandas grunges, como o Nirvana e o Pearl Jam. O público que compareceu ao Centro Cultural Oscar Niemeyer, (segundo um integrante da banda Black Mountain “lembra um pouco o cenário do seriado "Battlestar Galactica", e dá uma sensação de liberdade por ser aberto”) estava lá para ver rock, fosse ele local, nacional ou vindo do exterior. As bandas Gloom, Demosonic, Diego de Moraes e o Sindicato, The Backbitters e Motherfish, todas de Goiânia, se apresentaram ao lado do paulistas do Holger, Mickey Junkies e Continental Combo, além dos cariocas do Canastra e Marcelo Camelo (ex- Los Hermanos, um dos shows mais esperados), o gaúcho Frank Jorge e Lucy and the Popsonics, do Distrito Federal. Os escoceses do Vaselines e o americanos do Calumet Hecla e Black Lips, foram as atrações estrangeiras da noite.


Canastra
O Canastra fez uma apresentação extremamente bem humorada, e colocou o público para dançar. Bem antes de subirem ao palco, os meninos já chamavam a atenção pelo curioso figurino: camisas estampadas com temáticas tropicais.
A banda é composta por sete integrantes e muitos instrumentos: guitarra, gaita, trompete, saxofone, baixo acústico, trombone e bateria. As influências da banda vão do jazz ao samba, passando pelo country, surf musica e Woody Allen. Edu Vilamaior, vocalista e baixista da banda, contou que as trilhas sonoras dos filmes do cineasta americano, influenciam o som da banda, bem como o músico italiano Ennio Morricone. O nome da banda, como se pode imaginar, vem do jogo de cartas, associado à idéia de sorte e azar no jogo.


Frank Jorge
O gaúcho Frank Jorge está lançando seu terceiro álbum, com o "criativo nome", diz ele, de "Frank Jorge - Volume 3". Ele comenta que apesar de óbvio o nome tem o propósito de encerrar uma trilogia, iniciada com o disco "Carteira Nacional de Apaixonado", em 2000. Diz que suas novas composições ainda são influenciadas pelo rock dos anos 60 e sonoridades da América Latina, além da música brega nacional, como Roberto Carlos e até mesmo Reginaldo Rossi, que tem ganhado cada vez mais espaço em suas músicas. Aliás, ele comenta que gostaria que não houvesse tanto preconceito com este estilo musical no Brasil e diz que o fato de utilizar esta referência em sua música é uma maneira de ressaltar a importância destes compositores.
A apresentação de Frank Jorge fez uma boa mistura dos dois álbuns anteriores do cantor, além dos sucessos da antiga banda do músico, Graforréia Xilamônica. "Amigo Punk" foi cantada junto pela platéia, e "Elvis da fase decadente é melhor que muita gente", faixa do novo álbum, também foi muito bem recebida.


Vaselines
Os escoceses do Vaselines, de volta depois de quase 20 anos afastados dos palcos vieram ao Brasil apresentar os sucessos que fizeram com que Kurt Cobain, vocalista da banda Nirvana, fosse um de seus maiores fãs e também um dos maiores responsáveis por divulgar o som do Vaselines pelo mundo, ao fazer versões de "Molly’s lips", "Jesus don’t want me for a sunbean" e "Son of a gun". Possivelmente por este motivo, estas foram as três músicas de maior apelo junto ao público no setlist.

Eugene Kelly e Frances Mckee, estavam muito à vontade no palco, acompanhados por outros três músicos, entre eles o guitarrista Stevie Jackson, da banda também escocesa Belle and Sebastian. Fizeram piadas e comentaram que o Brasil é "the sexiest country", além de dizerem que na Escócia se bebe muito porque as pessoas não fazem muito sexo.

Perguntei a dupla ‘o que eles estavam achando do Brasil’ e eles se disseram surpresos com o clima pacífico, já que no exterior o assunto violência é muito comentado. Perguntei também se eles estavam contentes com a volta da banda e os dois se disseram muito animados com a nova turnê, que já passou pela Súecia, Estados Unidos e agora Brasil. Sobre um novo disco, contaram que em 2009, a gravadora Subpop, deve lançar remasterizações dos álbuns da banda, provavelmente com faixas inéditas. Além disso, Eugene disse estar escrevendo novas composições e que pretende reuní-las, eventualmente, em um novo material.


(Show da banda Black Mountain)

Segunda noite – Sábado

No segundo dia do Festival Goiânia Noise, o público pode conferir as apresentações da bandas locais, Cicuta, Mersault e a Máquina de Escrever, Mugo, Black Drawing Chalks e MQN; Amp, de Pernambuco; Guizado, The Dead Rocks e o Instituto (tocando Tim Maia Racional), de São Paulo; Gangrena Gasosa, do Rio de Janeiro; Os Ambervisions, de Santa Catarina e Cabruêra, da Paraíba. Além das atrações internacionais, Black Melkon, da Inglaterra; Black Mountain, do Canadá e The Flaming Sideburns, da Finlândia. Apesar do show do Instituto encerrando a noite - um dos mais aguardados e também um dos mais assistidos - o destaque do sábado foram os canadenses do Black Mountain. O Black Mountain foi uma boa surpresa, trazendo um momento mais denso e introspectivo, numa noite repleta de apresentações nervosas, como o "sarava-metal" do Gangrena Gasosa e o mini pogo a mini roda punk, promovida pelos catarinenses do Ambervisions.

Também entre as bandas nacionais, o MQN (foto), banda do anfitrião e um dos organizadores do festival, Fabrício Nobre, também foi uma das melhores apresentações da noite. O tradicional banho de cerveja promovido pelo vocalista ensopou todos que estavam por perto, que sabiam todas as letras e foram convidados a subir no palco e dividir o espaço com a banda.

O Repique conversou Amber e Jeremy, do Black Mountain:

Há quanto tempo vocês se conhecem? São todos canadenses? Vocês já tinham outros projetos antes do Black Mountain?
Jeremy - Alguns de nós nos conhecemos há bastante tempo, mais ou menos uns 10 anos. E sim, tocávamos em outras bandas, mas nos reunimos no Black Mountain há uns cinco anos. Somos todos canadenses, de várias partes do Canadá, apenas Josh, nosso baterista, nasceu nos Estados Unidos.

É a primeira vez que vocês tocam na América do Sul? Estão gostando do Brasil?
Jeremy - É a nossa primeira vez aqui, estivemos em São Paulo antes e agora Goiânia. Eu acho que gosto daqui um pouco mais, na verdade.
Amber - São Paulo é muito grande, muitas pessoas, aqui é menor, mais próximo do público. Na verdade nos dois dias que passamos lá não conseguimos ver muitas coisas, mas eu pude andar pelas ruas e achei tranqüilo, ao contrário do que nos disseram que no Brasil você deve tomar cuidado, pois pode ser roubado ou seqüestrado. Pra mim foi super tranqüilo, estou gostando bastante.

Nos últimos cinco anos, muitas bandas vindas do Canadá começaram a aparecer na mídia, como o Arcade Fire e Broken Social Scene, algo aconteceu no Canadá nestes últimos anos, ou foi apenas uma coincidência?
Amber - O Canadá tem muitas bandas, que vêm tocando há uns 10 anos, eu acho que se você consegue se manter compondo e tocando por 10 anos, algo realmente acontece, as pessoas passam a te conhecer depois desse tempo.
Jeremy - O Canadá é um país muito grande, as pessoas em geral não entendem bem a geografia do país. Vancouver está para São Francisco, nos Estados Unidos, assim como Toronto está para Miami, então é natural que muitas bandas surjam neste espaço imenso de terra que separa estas duas partes, são muitas culturas e influências diferentes.

Colaborou Fergs Heinzelmann, que também assina o blog: www.fergolina.wordpress.com

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