Daniel Daibem: Jazz ao alcance das massas

(Foto: Priscila Roque, Flickr)
A simplicidade do Jazz
Música boa está ao alcance das massas? Jazz poderia ser mais popular? Depois de um ano de alguns shows de jazz gratuitos na cidade - nacionais e internacionais - o Repique bateu um papo com Daniel Daibem, o locutor da Rádio Eldorado e apresentador do programa diário ‘Sala dos Professores’ - “um programa de 20 minutos, suficiente para chamar atenção aos detalhes da música. Para quem já gosta e para quem quer começar a gostar.” Bom, que fique claro que os professores são os músicos. Daniel está longe de ter um tom professoral. Vamos a ele e suas opiniões.
Daniel, Jazz é para as massas?
Com certeza. O problema não é a massa, mas quem conduz a massa, que põem música nas rádios e TVs e formam um bando de ouvido bobo.
Jazz existe para se aprender com ele. Tem muita coisa para se assimilar. É um estilo de música para você ouvir o outro. Cada vez é diferente porque o músico obedece a natureza do momento. Ele é um serviçal. É como o surf, você conhece as manobras, mas obedece as ondas. É sempre a mesma coisa, mas nunca é a mesma coisa.
Mas você acha que Jazz é popular o suficiente?
É popular. Veio de gente preta e pobre. O ritmo veio da África, do sofrimento de uma gente que veio trabalhar embaixo de chicotada na América. Sua procedência é totalmente percussiva e o sentimento percussivo é africano.
Tivemos alguns show de jazz gratuitos esse ano aqui em São Paulo, nenhum lotou.
Tem que fazer mais gente ir. É uma prova. O problema não é dar o show, tem que orientar. Não adianta ser de graça, porque neguinho não vai. Tem que criar o gosto. Não é em uma semana, são anos. Para fazer o caminho contrário demora um pouco.
Você vem fazendo isso na sua jornada…
Fazendo numas. Falo ainda com um público pequeno, classe A/B.
Jazz tem essa aura de sofisticação…
Música é música. Adoro quando vou a um show de parque aberto e tem um mendigo dançando. Já mandou o recado. Tem gente que paga pau de intelectual, que fala que curte jazz e não sente nada. Isso é igual com vinho, gastronomia e por aí vai.
O Jazz nasceu na era do salão, Big Bands, todo mundo dançando. Depois virou quarteto, e ficou cerebral, tipo ‘não pode bater o pé’, atrapalhar o show, essa coisa João Gilberto. Jazz é uma música de celebração.
Músico de Jazz tem Myspace?
Todo mundo. Os artistas grandes também têm que estar no Myspace. É uma mídia que qualquer um usufrui. Até a Rita Lee tem – ela sabe que tem que estar ali.
Qual o feedback do público depois dos seus programas?
Agradecem, dizem que nunca tinham entendido música dessa forma. Jazz é como um idioma, tem estrutura, tem suas regras, assim como o futebol. É preciso conhecer as regras desse idioma. É emoção e sentimento, mas se você entende o que está sendo dito, você vai dar mais risada. Tem algumas formas, temas que foram compostos, pergunta e resposta – quando um grupo de sopro pergunta e outro responde. Improviso não é criar do nada. São pequenas frases melódicas, que podem citar outras frases no meio de outras, tipo ‘I’ve got you under my skin’ de repente entra ‘Garota de Ipanema’.
Tipo um mash up.
Exatamente, só que a máquina está no vocabulário, nas mãos, na boca.
Quem você acha que facilita a popularização do Jazz?
Dos novos… Jamie Cullum que toca de maneira bem acessível, Joshua Redman, que não é exatamente novo. Está aí há 15 anos.
E quem dificulta?
Brad Mehldau, por exemplo, é um cara super complexo, mas ao mesmo tempo ele pega uma música do Radiohead e fica legal.
Onde a cena jazzística está fervendo?
Nova York está bombando. O jazz é americano. A gente nunca vai tocar jazz bem. Assim como os norte americanos não batem o samba como a gente, o nosso jazz sempre vai ter sotaque. O músico brasileiro que toca jazz toca um ritmo brasileiro na concepção do jazz, tipo baião, em que se pode brincar com o tema. E isso é bom demais.
E aqui no Brasil?
Está bem servido. Esse ano teve Herbie Hancock, Diana Krall, Lonnie Smith… Tem o ‘Jazz nos Fundos’, que apesar de lotar e as pessoas conversarem, todo mundo vai lá para ouvir música boa, as pessoas são educadas, só pode fumar do lado de fora. É super adequado.
Você já tocou lá…
Sim. Toco guitarra, faço parte de um organ trio, Hammond Grooves – bateria, guitarra e órgão.
Não tem baixo?
É uma formação dos anos 60, o órgão que puxa porque o cara puxa o contrabaixo no pé.
Excelente entrevista. Eu concordo com tudo que foi dito pelo Daniel. Aqui no Brasil temos o péssimo hábito de chamar qualquer coisa de “música brasileira”.
Resumindo é a mesma história de sempre, no Brasil falta o fundamental: Educação. Mesmo que musical.
Comentário por Ricardo — 27 de novembro de 2008 @ 14:27
Ola,
Li sua materia, ate concordo sim, so uma coisa cada pais com os seus ritmos adoro jazz e blues, assim como nosbrasdileiros, ninguem conseguira tb fz aquele samba né? Adoro musica, as de qualidade,. Parabens pelo bom gosto……Isabel
Comentário por isabel — 27 de novembro de 2008 @ 18:30
Concordo em parte com o que Daniel diz. Digo em parte, pois quando escutei a Spok Frevo Orquestra, de Pernambuco, meu conceito de jazz ficou um pouco balancado, desde a sua a veia africana ate as influencias europeias.
Bom, no final, e tudo musica, linguagens de base similar e intencoes diversas.
Comentário por Matheus Brasil — 27 de novembro de 2008 @ 18:47
Falou tudo Daniel. Quem sabe com um pouco de musicalização nas escolas e professores com o mesmo bom gosto que o seu, daqui uns 40 ou 50 anos consigamos encher um show de Jazz. E que as escolas compreendam que educação musical não é só batucar e parecer o Olodum. No Brasil educar pra musicalidade ainda é formar um exército de batuqueiros.
Comentário por Marcelo — 27 de novembro de 2008 @ 18:47
acho que é tudo bobagem…fronteiras foram criadas pelo ser humano…se eu nasci no egito ou em madagascar, posso aprender jazz como qq um ser humano de qq lugar do mundo…esse pensamento só torna vc limitado. A musica erudita vem da europa…então, nós brasileiro tb não vamos saber fazer bem! Tem grupos de choro japoneses que entendem a linguagem e fazem choro como os brasileiros… “O nacionalismo é uma doença infantil. É o sarampo da humanidade”. (A.Einstein)
Comentário por junior — 27 de novembro de 2008 @ 18:52
Ótima entrevista. Mas vou discordar quando Daniel diz que o músico brasileiro não sabe tocar jazz. Jazz é um estilo que já teve inúmeras fases, todas muito diferentes entre si. A riqueza do jazz vem justamente da mistura de linguagens. Acho complicado dizer que brasileiro não toca jazz bem. É afirmar que um grande músico como Vitor Assis Brasil não tocava jazz bem, ou que Cuca Teixeira, Thiago do Espírito Santo, Proveta ou Daniel Alcântara, só pra citar alguns, não sabem tocar jazz.
Comentário por Paulo — 27 de novembro de 2008 @ 19:05
comentário infeliz…menosprezou nossa musicalidade!
e nao esqueça: eles não sabem tocam bossa nova !
Comentário por Regis Fender — 27 de novembro de 2008 @ 20:02
Boa entrevista mas, discordo no que diz que brasileiro nunca vai tocar jazz bem. Cito um grande músico que além de tocar compõe também… Toninho Horta.
Comentário por ecastro — 27 de novembro de 2008 @ 20:36
Gostei da entrevista. Jazz não é só um estilo, é um sentimento, infelizmente ainda é inacessível para muitos. Mas estamos melhorando, semana passada vi uma apresentação maravilhosa no auditório da Livraria Cultura, e melhora ainda, estava lotado…
Eu moro no interior de SP, o jazz não é muito popular por aqui, quando tem alguma apresentação é para grupos fechados e com um custo relativamente alto para a maioria da população, é uma pena. Gostaria de lembrar também que Norah Jones é uma importante representante da nova geração do jazz, apesar de seu estilo ser bem moderninho, tem muita qualidade.
Comentário por Elisa Barateli — 27 de novembro de 2008 @ 20:38
Interessante a entrevista, quando li o titulo pensei ‘tenho d ler essa palhaçada” porem, ao ler percebi no que realmente se tratava. Ja ouvi musicos brasileiros muito bons tocando um otimo jazz, mas como ja foi citado ha algumas peculiaridades regionais que ficam sim empregnadas nas musicas, samba = do Brasil não ha no mundo, mas naum acho que aconteçe o mesmo com o jazz.
Comentário por Thiago Rondão — 27 de novembro de 2008 @ 20:53
Gente preta!?
Que infelicidade.
Quanto preconceito!
No que diz respeito a música, vem sempre essa baixa estima do brasileiro, de que para se passar por intelectual, tem que desvbalorizar o que é brasileiro, superlatar o que vem de fora.
Respeitamos e gostamos do jazz e outras músicas, mas ninguém toca bossa nova e o samba como nós.
Comentário por Guaracimir Jorge Nascimento — 27 de novembro de 2008 @ 22:23
Concordo sem dúvidas com relação ao acesso aos estilos. Quando tocamos (Jazz, Bossa Nova, Blues…) instrumental, em um lugar aberto a maioria das pessoas que param são crianças e idosos. Se estas crianças ouvissem Jazz desde pequenas criariam o gosto pela música “livre” como vc disse.
Agora tenho que discordar do fato de vc dizer que não tem brasileiro fazendo Jazz americano. Talvez essa frase tenha ficado mais grave por conta do título (na capa) da entrevista, e do contrário eu nem discordasse. Mas você precisa conhecer a história de brasileiros, por exemplo Claudio Celso, que viveu em Nova York e aprendeu Jazz tocando com Miles Davis, Jaco Pastorious entre outros “problemas”.
Coloque um coelho entre gatos, ele vai miar!
Abraços e, se quiser, escute o Jazzul Trio. Não temos baixo tb! Não existe músico instrumental só em capital hehehe Na minha terra só tem fera e uns loucos aprendendo como nozes…
Comentário por André Nardelli — 28 de novembro de 2008 @ 7:37
Ola, li esta e matéria e decididamente acho que isso não é verdade, somos seres humanos, capazes de aprender TUDO atravez de estudos, com a música não é diferente, temos a oportunidade de apreneder, muitos músicos brasileiros nascem com um dom incomparável, este dom somado com horas de estudo, didicação e amor pela música torna SIM exelentes Jezzistas…
Tive a oportunidade de assistir no último dia 15/11/2008 o Fstival de Jazz de Joinville, acho que vc deveria se informar sobre os artistas que se apresentaram la, posso comentar sobre o Quarteto Dedo de Prosa, que relamente provou o que acabei de destacar acima, tudo se aprende e conquista, o ser humano tem este poder, seja brasileiro, japones ou ate americano.
Comentário por Suziane Vanelli — 28 de novembro de 2008 @ 7:45
Prezado Daniel,
Eu sou Leonardo Alcântara do Blog JazzMan!. Conversamos durante o festival de Rio das Ostras, lembra?
Muito bacana as suas palavras. Seu programa é interessante, pois dá ao leigo a oportunidade de perceber que o Jazz não é nenhum bicho papão, além de ser uma ótima fonte de pesquisa para os admiradores e consumidores do gênero. O que mais me admira no Jazz é a sua história, que refletiu diretamente na sua maneira de ser tocado. O Jazz tem uma bela história de superação e improviso, de uma verdadeira raça de sobreviventes diante de todos os preconceitos e maldades. O Jazz, desde sua origem é de se integrar, pois ele nasceu do contato com a música improvisada dos negros, com a música mais conceitual dos Creoles de Nova Orleans. Temos que divulgar mais essa arte e acabar com esse rótulo de “música de elite”. Eu mesmo sou do subúrbio carioca, longe dos patamares da classe A/B e ouço Jazz desde pequeno, pois o jazz sempre se portou como uma arte verdadeira, de mestres capazes de mudar pessoas através dos sons. Hoje, nós temos Jazz para todos os gostos, desde os vanguardistas do Jazz europeu, passando pelos Young Lions com um Jazz mais tradicional e artistas que fazem uma espécie de jazz-pop, como Jamie Cullum. Há Jazz para todos os gostos, vamos começar?
No Blog JazzMan! há música, entrevistas e informações sobre o gênero. Neste final de semana, irei publicar a entrevista que eu fiz com Roberto Muggiati, um dos maiores escritores brasileiros do gênero. Acessem: http://www.jazzmanbrasil.com/
Obrigado.
Comentário por Leonardo Alcântara — 28 de novembro de 2008 @ 9:54
Pessoal, acho que o Daniel não foi bem compreendido aqui por algumas pessoas. Ele jamais acharia que brasileiro não sabe tocar jazz, até porque ele mesmo estudou música durante anos e toca jazz com sua banda.
Acho que ele quis dizer é que o brasileiro pode dar o seu toque no som, o seu suingue, e isso não faz dele melhor ou pior, apenas único, diferente.
E é claro que cada um tem a sua história, deve haver caras que tocam com muito mais influência dos americanos do que do som do nosso País. E é isso tudo que faz da música uma coisa tão linda, tão legal: sua diversidade, sua riqueza de harmonias, melodias e estilos.
Comentário por Carol — 28 de novembro de 2008 @ 11:18